Páginas

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quem nunca desejou amar?


Sentei no sofá cansado e triste. Olhei ao meu redor e o silêncio era perturbador. Coloquei aquela velha música para tocar. Pela primeira vez em anos eu senti. Senti as forças esgotarem, as lágrimas chegarem; senti meus medos aflorarem, minhas verdades aparecerem, meus sonhos clamarem. Não podia ser! Não naquele momento! Eu queria voltar a não sentir nada – é possível! –, eu queria poder não me importar, não sofrer... Eu queria não amar.
Por um instante, senti que duas versões de mim sentaram ao meu lado: o passado e o presente. O passado, com todos os seus sonhos, desejos e amores, me disse para sorrir. Disse que o amor estava chegando, que a vida era boa, que o mundo brilhava lá fora, que Deus entalha sorrisos nas flores e que há beijos de amor por toda parte. Já o presente, do auge da sua ignorância, da sua frieza, da sua ausência de sentimentos, clamou o sofrimento. Olhou em meus olhos e disse: “Pobre passado, tão sonhador, tão romântico, mas tão errôneo! Não vê ele que os amores não são eternos? O amor nos enfraquece!”. Aquelas palavras me fizeram sentir, mas não era o que eu queria.
Olhei para os dois. Tanto o passado quanto o presente queriam uma coisa: felicidade. Um queria crer no amor, na inocência das pessoas, nas grandes amizades, nos grandes amores... O outro, tão mais certo de tudo, sabia que nem as amizades e muito menos os amores são eternos. Eu percebi. As palavras do presente eram verdadeiras, eram as palavras de quem amou, sofreu, chorou, viveu. E agora? O que fazer? Esperar a vida passar sem medos, angustias, sofrimento ou lágrimas? Esperar que as coisas boas aparecessem sem dores? Os dois estavam errados. Não era possível sentir ou manter-se indiferente. Era preciso sim sentir o amor, a força das palavras, gritar, espernear, brigar, amar, transar, falar... Mas com a sabedoria que o presente conhecia, essas coisas seriam mais fáceis. Seriam maduras, sinceras, reais.
No fim, vi os dois desaparecerem com suas mágoas, incertezas, paixões e certezas. Restou apenas o meio termo: o futuro. Um futuro com amor, mas um amor real. Ele sabia que não era possível amar sem sofrimento. Ele percebeu que o amor era sim uma fraqueza, afinal, quando depositamos nossas forças em alguém, queremos que aquele alguém nos segure forte, nos proteja, mas sabemos que, se um dia aquilo acabar, perdemos a nossa força. Finalmente ele compreendeu que não existiria a sua princesa encantada, que ela seria entediante. Ele queria um amor real. Ele queria amar. Todos nós queremos amar.
Inclusive a mais fria das criaturas.
Inclusive as mais românticas criaturas.
Inclusive os que se fazem de forte. Inclusive eu.