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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Carta ao Amor Finito


Meu amor,

                Hoje faz um ano que te vi pela primeira vez. Um ano desde que meus olhos brilharam por você pela primeira vez. Um ano desde que vi aquela foto, sorri e pensei “Por que não?”. Hoje faz um ano desde que li teus textos pela primeira vez. Faz um ano que ouvi “Somewhere Only We Know” e repeti inúmeras vezes durante o dia. Hoje faz um ano que sonhei, que sorri feito um retardado por horas e horas. Um ano desde que deitei na cama e pensei por horas se eu deveria me arriscar, se eu deveria realmente me encantar por você. Eu já estava encantado.
                Hoje faz um ano que a minha paz acabou. Hoje faz um ano desde que deixei meu coração amar perdidamente, se entregar loucamente a uma estúpida paixão. Hoje faz um ano que passei a dormir tarde, acordar cedo, sonhar acordado e suspirar alto. Hoje faz um ano que resolvi abrir o meu coração, que deixei, de uma forma jamais vista, alguém invadi-lo e roubar a minha alma – em tão pouco tempo. Hoje faz um ano que eu sorri. Faz um ano que tremi, gelei, suei frio. Faz um ano que meu coração acelerou, meu pulso disparou, minha respiração ofegou. Era você. É você. Infelizmente ainda é você.
                Eu te amei. Eu te odiei e amei e odiei e amei e repudiei e ignorei e, por fim, como uma puta ironia do destino, amei novamente, feito um idiota. Um ano se passou. Você mudou, eu mudei. Você não é mais aquela garotinha assustada com medo de amar. Eu não sou mais aquele garotinho que, apesar de se dizer corajoso, tinha medo de ser amado. Hoje eu não sou mais aquele garoto. Um ano se passou e eu morri, morri um pouco, mas não faz mal. Dizem que morremos um pouco a cada dia, seja por dentro ou por fora. Hoje faz um ano que uma parte de mim começou a morrer, a melhor parte de mim. Hoje faz um ano que meu coração acelerou ao te ver e, por mais que digam o quão errado estou, creio que te amei no momento em que coloquei meus olhos em você. Eu te amei naquele dia dois de novembro às nove horas da manhã de um domingo.
                Certa vez associei o amor a uma chuva: chega, nos invade com a alegria como o cheiro de terra molhada, então surgem as tempestades e relâmpagos até que, enfim, surja um belo arco-íris. Eu cheguei ao meu arco-íris, mas infelizmente você não está aqui pra ver. E por mais que seja trágico dizer que comecei a te amar no dia de finados – me perdoe! –, mas eu acho que deixei de fazer sentido há muito tempo.
                Hoje faz um ano que te conheci, um ano que minha vida mudou, O ano em que minha vida mudou. E apesar de te odiar em algumas horas, sei que o meu amor é verdadeiro porque ele não foge das mágoas, ele não foge das tristezas, da raiva, de tudo. Eu, logo eu, que tanto quis um amor ideal, vivi o amor mais realista possível. Justo eu que tanto sonhei com uma princesa, encontrei uma mulher que em nada parecia perfeita. Mas você era perfeita... Você é perfeita – pelo menos ao meu olhar. E por mais que digam que seja loucura ainda te amar, eu continuarei a sentir.

“And they say everything it happens for a reason
You can be flawed enough but perfect for a person
Someone who will be there when you start to fall apart,
Guiding your direction when you're riding through the dark”
               

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A música. A desilusão. A foto.



                Uma lembrança se faz presente. Faz um ano que ouvi aquela música... Por coincidência, o calendário foi corajoso ao me lembrar que naquele domingo e nos dois seguintes, três fatos mudaram quem eu era. Três passos de um estágio sem voltas. 
                A música que inspirou, que marcou, que motivou e que foi ouvida diariamente ao longo desses trezentos e sessenta e cinco dias (sim, por extenso para mostrar o quão longo foi esse ano). A música que me fez ser um homem determinado (em boa parte do tempo) e que me acalentou durante várias noites de amargura. A música que me fez querer partir, ficar, amar, odiar, lembrar, esquecer, tentar, compreender, tentar compreender.
                A desilusão. O amor conturbado que quebrou a casca que aqui existiu por mais de dois anos. A desilusão que me fez não acreditar tão facilmente no amor e na sua beleza, que me fez duvidar de amizades e que, acima de tudo, alimentou a frieza do meu coração. A desilusão que me fez desacreditar ainda mais nas pessoas e nas suas palavras de “Eu te amo!”. A desilusão... A doce desilusão. A amizade e o amor; ambos destruídos por um simples beijo.
                A foto. Aquela foto... O sorriso tímido, os textos bem escritos, as músicas inspiradoras. Como eu sonhei, como eu desejei. E por mais que o medo e a insegurança de me apaixonar se fizessem presentes, eu tentei. Tentei, tentei, tentei e voltei atrás. Tentei novamente e, por fim, quando a coragem me tomou por completo, não havia mais tempo para amar. A foto que tantas vezes me fez sorrir e chorar e que, ainda hoje, me causa arrepios. A foto de quem me fez descrer no amor mais uma vez.
                Eu não odeio o amor. Eu odeio os “Eu te amo!”. Os falsos “Eu te amo!”. Eu odeio as pessoas que dizem amar sem certeza e que não buscam a clareza das suas emoções. Tanto aquela música, quanto aquela desilusão e aquela foto foram marcos pra mim, marcos da minha vida, marcas da minha alma. Momentos inesquecíveis que me fizeram crer e descrer. E hoje, com todas as marcas que guardo, eu não voltaria atrás. Eu teria ouvido aquela música, teria me desiludido novamente, teria visto aquela foto e me apaixonado per-di-da-men-te. No fundo, eu não gostava daquele meu eu, um eu frio que não fazia questão de amar. Quanto maiores as nossas desilusões, maiores as nossas mudanças. Para o bem ou para o mal.

Texto de 19/10/2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Tempo


Música: Wish - Hurts

                “O relógio na minha frente parece mentir. Já faz tanto tempo... Tanto tempo... Eu queria poder voltar no tempo, queria poder corrigir meus erros, não ter aceitado os teus. Eu devia ter amado mais... Eu devia ter tentado mais...
                Um ano se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Fui traído por amigos e amores. Fui jogado aos leões e sobrevivi. Enfrentei tempestades, vendavais e infernos; mas nenhum deles foi capaz de me desorientar tanto quanto você. Eu mudei. Acho que me tornei um remendo de sentimentos, um boneco quebrado que foi posto à venda no fundo de uma prateleira escondida. Um velho boneco de sentimentos que insiste em olhar para o relógio e lembrar de momentos que mereciam ser esquecidos.
                Uma década se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Fiz novos amigos, perdi tantos outros. Tive vários amores e hoje casei. Tenho uma esposa, filhos a caminho... Tudo parece ter se encaminhado aos poucos e eu não mais tenho notícias de você. Eu não tenho mais notícias do meu primeiro amor. O velho boneco, eu, foi comprado, restaurado e ganhou vida. Ele seguiu seus sonhos, enfrentou guerras e demônios internos. Se reergueu e caiu tantas vezes que os dedos das mãos são incapazes de contar. O relógio tornou-se esquecido. O tempo passou tão rápido e ele nem se deu conta.
                Uma vida se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Vi meus amigos morrerem, vi a mulher que tanto amei partir. Vi meus filhos casarem, tive netos, tive novas lembranças. Minha vida seguiu seu rumo perfeitamente, o rumo natural das coisas: nascer, viver, morrer. Hoje, à beira da morte, não vejo a esperança que me rondou durante os anos após te conhecer. Olho para a minha frente e vejo um relógio. Em meio aos sons quase inaudíveis das batidas do meu coração, sinto um pulsar forte em mim. As lembranças se fazem presentes, você me vem à mente; vejo novamente a tua foto (aquela foto), o teu sorriso visto do alto da escada onde eu me encontrava, do abraço que te dei em meio ao meu suor. Minhas mãos quase frias da morte lembram dos teus dedos se encaixando perfeitamente nos vazios entre os meus. Tudo na minha mente.
                Uma vida se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Porém, no fundo de mim, onde a luz nunca mais ousou encostar, eu sabia que existia algo: aquele velho eu, aquele velho garoto repleto de medo, repleto de amor e de inseguranças que um dia ousou te amar. Havia dentro de mim ainda aquele amor. E enquanto ouço e sinto meu coração desacelerar, eu sinto a tua mão tocar na minha, ouço a tua voz. Encontro a paz.
                Apenas um ano passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Porém, dentro de mim, há algo pulsante; algo abafado. Algo que precisa ser sufocado. Um amor, uma dor, um temor. O relógio não mente. O tempo passou e eu sei que ainda te amo, mesmo que contra a minha maior vontade: a de te esquecer.”

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Pra Nunca Esquecer – Epílogo



                Eu acho que chegou a hora de dizer adeus. Adeus não somente a quem eu era, mas ao que eu fui, ao que me tornei e ao que eu poderia me tornar. Eu acho que chegou a hora de dizer adeus aos pequenos momentos, às doces lembranças e, até mesmo, ao meu maior pesadelo: você. Acho que chegou a hora de dizer adeus aos choros intermináveis, aos pesos insuportáveis e à firmeza inabalável. Chegou a hora de dizer adeus a tudo aquilo que existiu.
                Pra nunca esquecer, permiti me perder, permiti que o meu coração fosse o mais louco dentre todos com uma batida única e forte. Pra nunca esquecer... Pra nunca esquecer das nossas músicas, das nossas lembranças, das nossas mágoas, dos meus choros. Pra nunca esquecer o nosso amor.
                Desde criança, eu sempre quis lembrar. Aliás, desde sempre, meu maior medo foi justamente esquecer. E agora, me vejo preso em um final, escrevendo um epílogo, um triste epílogo onde não há finais felizes – se é que há um final!
                Pra nunca esquecer, eu tentei lembrar, tentei não dizer adeus, tentei guardar as boas lembranças e adormecer as terríveis mágoas. Não adiantou. Cheguei a um ponto em que descobri que, para me reencontrar comigo, eu preciso esquecer. Esquecer as boas e más lembranças, criar novas memórias. Apagar o passado, corrigir o presente e buscar um futuro.
                Chegou a hora de escrever o ponto final. Não tenho mais palavras nem espaço. Esse é o meu epílogo, o fim dessa história; uma história de amor com dor, comédia, drama, tragédia, risos e tudo mais que eu poderia sonhar. Uma história prolongada e vivida com apenas um intuito: pra nunca esquecer o quanto eu amei você. 

sábado, 10 de outubro de 2015

O Quarto



                “Eu poderia fechar as janelas, mas a música me parecia tão condizente ao momento. Por mais que as paredes fossem velhas, que o chão estivesse sujo e que eu estivesse em meio a lágrimas com uma garrafa de vodka em uma de minhas mãos, eu poderia dizer que havia beleza naquele momento. Tantas pessoas falam que homens não choram, mas estão enganadas. Homens choram.
                É como se fosse o fim de uma história. É como se todos os meus sonhos tivessem chegado ao fim e eu estivesse preso ali, mas com as janelas e portas destrancadas me esperando para sair daquele fétido lugar. Eu poderia sair, eu deveria sair; mas eu não conseguia. Após tantos tempo, após tantas feridas terem ficado em aberto, eu me vi perdido, sem esperança, com o coração vazio.
                As circunstâncias que haviam me levado até ali foram as mais banais: traições, mentiras, joguinhos... Enfim, coisas que todos dizem “vai passar”. Não... Não vai passar tão fácil quando você só estiver acostumado a elas, quando você passar anos e mais anos apenas com essas visões da vida, quando todas as coisas boas tornam-se mínimas perante às desgraças que acontecem.
                Não havia tempo para cicatrizar feridas. Elas insistiam em ser criadas nos mesmos lugares. No coração, no corpo, na alma. Eu havia me tornado um boneco quebrado, um marionete de tantas mentiras, um alguém que havia perdido a esperança e que, agora, com a liberdade batendo à porta, poderia sair. A escuridão havia tomado conta do meu quarto e por mais que as janelas e portas abertas o iluminassem, elas não seriam capazes de iluminar a pior de todas as escuridões: a que estava dentro de mim.
                Por trás de todas aquelas bebidas, cigarros e drogas; eu sabia que, no fundo, eu estava morto. Eu havia sido morto aos poucos pelos meus amigos, pelas minhas amantes – meus amores–, todos aqueles em que eu havia confiado. Era tarde, era tão tarde que as coisas boas tornaram-se ínfimas perante à vida com a qual eu havia sido apresentado. Não havia mais coração para ser preenchido ou resgatado. Não existiam palavras que fossem capazes de me fazer sorrir. Havia apenas o homem sentado numa poltrona com uma velha garrafa de vodka na mão direita e um cigarro quase terminado na mão esquerda.
                Havia beleza naquele momento. Havia beleza nas minhas lágrimas. Acho que havia um pouco de esperança bem lá no fundo. Uma esperança de que tudo se resolveria, de que todas as verdades seriam expostas. Havia a esperança de que eu, somente eu, fosse capaz de sair daquele quarto. O caminho até a porta estava livre e só cabia a mim escolher como ir até lá: rastejar, caminhar ou correr.”

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Amar o Amor


Música; Wave - Tom Jobim 

                Há uma linha tênue entre o amor e a dor. Há um espaço vazio entre as paredes do meu coração. Acho que passamos a nossa vida toda na expectativa de encontrar alguém, de nos preencher, de conhecer alguém que nos faça suspirar. Um alguém que nos “complete”. Em todas as minhas experiências aprendi que, mesmo com as diferenças, não há complementação. Não há um sentido bom em ser “completado”. Na física do amor, opostos não se atraem, tendem a se repelir. Ok. Temos nossas exceções... Mas, no fundo, a verdade é que quando há o amor, não existe diferenças. Não existe aquela mínima coisa que nos faça repelir esse alguém.
                Há um erro na lógica da vida. A partir do momento que pensamos precisar de alguém para sermos felizes, depositamos todas as nossas fichas nessa esperança, nessa vil esperança de que alguém (além de nós mesmos) será capaz de fazer aquilo que sequer conseguimos. Antes de encontrar alguém, precisamos nos encontrar. Antes de amar alguém, precisamos nos amar. São os requisitos do amor. E me desculpem, mas Tom Jobim estava errado: não é impossível ser feliz sozinho. É sozinho que somos felizes o suficiente para encontrar alguém com quem compartilhar essa felicidade.
                Há um erro na tenuidade do amor. Amor não é uma parede fina que construímos, é uma parede grossa, espessa, trabalhada e reforçada com todos os itens necessários. Amor é aquilo que podemos sentir em uma hora, um dia, ou no tempo que acharmos que é. Se acharmos que é amor, que seja. Se não for, paciência. Há beleza em se dizer amante, em querer amar, em dizer amar, em viver amor. Amar e amar cada vez mais. Acho que é isso que nos impulsiona na vida: o amor, seja por alguém ou por si mesmo. 

sábado, 3 de outubro de 2015

A Graça do Amor



                As portas se fecharam. As palavras não conseguem mais sair. Eu poderia inventar dialetos, modificar palavras, pintar quadros, compor músicas; mas eles seriam incapazes de expressar os meus sentimentos. A escuridão parece inevitável e, aos poucos, pareço voltar àquele “eu” de outrora, um eu invernal, frio, calado e sem perspectivas nem anseios de aquecer o coração. Coração... Sempre tão estúpido e idiota... Coração... Órgão tão essencial...
                Não consigo compreender o amor. Eu até que tentei (juro!), mas não consegui. Sentimentozinho complicado, confuso e aterrorizante. Não “podemos” nos apaixonar por quem se parece conosco, afinal seria um romance sem desafios. Não “podemos” nos apaixonar por quem nos é tão diferente, afinal seria um romance sem futuro. Não “podemos” sequer nos apaixonar rapidamente, afinal somos loucos de viver tamanha intensidade. Não “podemos” ter paciência no amor, afinal o coração é feito para sentir as dores e os amores onde e quando eles vierem.
                Acho que, no fundo, mas no fundo mesmo, eu errei. Errei em tanto tentar compreender o amor, em tanto encontrar explicações racionais para os meus sentimentos. Errei em ter tamanha exatidão, em tentar explicar com exatas aquilo que nem de humanas é. “Coração não é tão simples quanto pensa”! Acredito que o amor tenha sido “feito” para ser sentido. É... Eu acho que senti o amor. Eu não fui racional de um todo, eu me deixei inundar pelo amor, deixei meu coração à deriva, desancorado. E não tenho culpa se as âncoras nele jogadas não foram fortes o suficiente para fazê-lo querer ficar.
                No fundo, eu acho que graça do amor é essa: se jogar, ser abestalhado, rir das mesmas idiotices por mais infantis que elas sejam. É querer estar perto, querer abraçar, beijar, apertar, sentir o cheiro, fazer carinho, alisar o cabelo um do outro e no fim não se cansar disso tudo e querer sempre mais. A graça do amor é a cumplicidade, a amizade, o próprio amor, a paixão, o tesão. Tudo. Amor não é soma nem diferença, não é cabível de interpretação, não é obrigado a ter explicações. Amor pode ser tudo ou nada, pode ser sobre viver ou morrer, sobre ganhar ou perder, sobre amar ou morrer...
                Amar não é fácil. Encontrar o amor é difícil. O amor é capaz de adoçar a vida, mas também é capaz de fermentar a morte. Afinal, de que adianta encontrarmos o amor se, ao fim de tudo, iremos morrer? Pessimista, eu sei, mas real. Acho que agora entendi a graça de viver um amor. Talvez ele sirva para aquecer o coração, fazê-lo bater mais forte, com intensidade, para que, no dia da nossa morte, ela possa doer de verdade. Um coração que nunca amou (me perdoem) só pode estar morto. E qual a graça de fazer parar um coração que nunca bateu?