Páginas

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Passarinho


                Passarinho nasce tentando caminhar. Pouco a pouco vai tentando dar os primeiros passos e não tarda a alçar voo. 
Passarinho aprende a voar desde cedo. Se joga do topo da árvore, do prédio, de onde for, e se lança no mundo.
Passarinho se acostuma desde cedo a viver em bando. Quando desvia, sozinho, acaba morrendo. Passarinho parece não suportar a solidão.
Gente é como passarinho. Demora mais tempo, mas consegue voar. Consegue montar o seu bando e se joga no mundo.
Mas tem passarinho que se desvia. Não buscando um novo rumo, sozinho.
É que tem passarinho que morre simplesmente porque o mundo lhe é grande ou pequeno demais.
Tem passarinho que não chega ao final da jornada.
Tem passarinho que deseja muito mais do que simplesmente voar.
Passarinho que morre sozinho é porque carrega um mundo inteiro dentro de si.
Passarinho, quando morre, se livra das amarras, das regras. E então conquista o (seu próprio) mundo.
Tem passarinho que, somente quando morre, começa a viver. 

domingo, 15 de outubro de 2017

O Melhor de Mim


Música: Wings - Birdy


                A lua minguava. Dentro de mim, algo crescia. Naquele momento, nada me faria melhor do que a luz do Sol, mas eu precisava me contentar com o brilho das estrelas e das poucas luzes acesas na cidade. Meu corpo pedia o chão, minha alma clamava o céu. Eu parecia estar longe de mim mesmo, por tanto tempo que sequer conseguia calcular.
                Eu precisava de um recomeço, de um novo rumo. Eu queria poder voar, da forma mais majestosa que eu conseguisse, para um lugar que só eu conhecesse. E lá estava eu, sozinho, em meio ao vazio e a escuridão da noite, iluminado por tão poucas coisas, mas conseguindo enxergar, pela primeira vez em eras, o que eu mais precisava ver: o meu eu.
                Consegui, naquele momento, enxergar tudo aquilo que fui, o que poderia ter sido e no que eu havia me tornado. As mágoas não eram mais tão dolorosas, tornaram-se aprendizado. Os amores – mesmo os mais cruéis – tornaram-se boas lembranças de um período onde eu era feliz. Os amigos e parentes – e todos aqueles que um dia me machucaram – ganharam espaço no canto de uma doce saudade que eu buscava rejeitar.
                Tudo aquilo, todas as dores e amores, fazia parte de mim. Todas aquelas coisas me levaram ao meu eu de agora, ali, deitado numa grama verde e incômoda numa noite qualquer, iluminado por poucas estrelas e por raras luzes. E então, havia motivos para me arrepender? De que adiantaria ter sido correspondido no primeiro amor, se eu não pudesse ter a chance de viver o último e/ou mais intenso? De que adiantaria não ter sido traído por tantos amigos, se eu não pudesse ter as boas lembranças que pude compartilhar com todos eles? De que adiantaria mudar todo o meu passado e viver apenas os momentos felizes, se eu não pudesse hoje ser esse eu-orgulho, maduro, repleto de amor – não somente em si – e de tudo aquilo que um dia sonhei pra mim? De que adiantaria ter sido tão feliz, se eu não pudesse ter me tornado aquilo que sou e que hoje considero a melhor versão de mim?
                Creio que com o passar dos anos, pouco a pouco, vamos perdendo um pouco da nossa essência, vamos ganhando novos aromas, deixando outros nos escaparem. Como uma mistura de fragrâncias elaborada por um alquimista qualquer.
                Hoje eu sorri. Mesmo com aquelas formigas que devoravam meu corpo naquela grama, eu sorri. Sorri porque tentei, pela primeira vez em tanto tempo, me permitir sentir tudo aquilo que eu devia, queria e podia sentir. Hoje eu amei. Amei a mim mesmo como há muito eu não fazia. Sem arrependimentos, sem mágoas, sem buscar explicar tudo de uma forma racional. Hoje eu vivi. Vivi em mim mesmo, no meu melhor e no meu pior. Vivi em meio a inúmeros sorrisos e lágrimas. E creio eu que, quando eu estiver no melhor de mim – quem sabe aos meus setenta ou oitenta anos – eu possa experimentar novamente essa sensação, cansado, desejando repousar o corpo numa grama qualquer, olhando para o céu e deixando minha alma ir em sua direção, sem que nada pudesse me prender. Sendo livre, como sempre quis, como sempre fui. Sendo o melhor de mim. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Utopia

Eu queria correr. Correr para as estrelas, para um lugar qualquer, para onde eu puder. Eu quero repousar, descansar, relaxar, respirar; encontrar uma paz que há tão tempo não vejo em mim. Quero rir de bobagens, planejar viagens; quem sabe ter miragens de algum lugar onde eu ainda possa ir? Eu quero essa estúpida esperança que, mesmo não sendo mais criança, insisto em manter.
Quero respirar o ar puro, viver em um mundinho só meu, onde essas pessoas... Essas cruéis pessoas... Não possam mais me marcar. Eu quero acordar com toda aquela alegria que, lá atrás, um dia, eu sonhei encontrar. Eu quero um amor de verdade, que me traga felicidade e que eu possa amar. Não quero um amor perfeito, talvez o amor direito, onde a única regra seja aquela estúpida ideia de amar.
Eu quero um mundo novo, onde não haja mais maldade, onde a minha felicidade seja o combustível do meu viver. Quero distância dos falsos profetas, do barulho de motocicletas... Onde só eu e eu mesmo possamos viver. Eu quero essa alegria, uma doce utopia, que mesmo tão impossível de acontecer, me deixe apenas com a ilusão... A doce ilusão... De que ainda posso saber viver.  

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eu jurei nunca mais escrever...

Se você quer me amar, pode entrar - eu deixo! -, mas promete cuidar de mim? Promete que não vai machucar o meu coração, que não vai me ferir na primeira oportunidade e que não vai partir, do nada, me massacrando com a saudade?
Promete que vai estar comigo nos bons e maus momentos, na alegria e na tristeza e em todos os votos que fazemos ao casar? Porque se não for pra ser assim, eu não quero.
Não. Não me entenda errado. Eu não quero um casamento logo após o primeiro ou segundo encontro - se é que quero isso -, mas é que não sou homem de viver meias verdades, de fazer joguinhos de sedução, especular gestos, deduzir tantas outras coisas. Gosto do jogo sincero, das cartas na mesa e das roupas no chão. Eu quero um romance de verdade, de carne e osso; onde possamos brigar e, ainda assim, deixar tudo passar com um olhar, um sorriso, um beijo e um sonoro "eu te amo!". Eu quero intensidade, mas não quero irresponsabilidade. Não quero arriscar meu coração nas mãos de alguém que busca apenas diversão. Eu não nasci pra isso.
Nasci pra os programas pacatos de casais, daquelas coisas caretas e bregas que as pessoas amam em livros e rejeitam para si mesmas. Não quero festas, só se for com você. As festas dos nossos beijos, abraços, jogos e, inclusive, das piadas internas que jamais alguém ousará saber. Quero uma liberdade nossa, um infinito particular criado por uma ideia que aprendi na matemática do ensino médio: conjunto união (eu, você e nós; com todas as nossas qualidades e defeitos).
Quem vê assim de fora deve pensar que sou controlador, talvez obsessivo; mas não. É que não me bastam as relações vazias, o ficar por ficar, as 50 e tantas bocas beijadas em um mês. Eu quero amar. Eu quero me arriscar. Quero lembrar do teu nome, da tua pele, do teu gosto, do teu beijo, do teu gozo. Quero lembrar dos momentos mais alegres e dos mais tristes para que - caso estejamos juntos daqui a algumas décadas - possamos sorrir e lembrar orgulhosamente se tudo o que fizemos e do quanto nos doamos. Eu quero um amor memorável. E me desculpe se você não o quiser – não hoje ou agora –, mas é que a vida pode ser curta demais para ser vivida em água morna.