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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Para Esquecer



                Hello, stranger! Lembra de mim? Sou eu, aquele alguém que você um dia disse gostar.
                Hello, stranger! Talvez o tempo tenha passado. Aliás, acho que ele passou. Um mês? Um ano? Perdi as contas. Justo eu, sempre tão preciso com datas e palavras, acabei me tornando refém delas... Refém da falta de tempo e da falta de palavras.
                Hello, stranger! Eu me lembro bem da nossa última conversa. Lembro das minhas palavras de ódio, lembro de como eu me irritei com você por descobrir coisas que até o diabo duvidaria. Eu me lembro tão bem daqueles dias, daquela primavera ensolarada em que te conheci. Parece até que foi ontem. Parece até que foi um ano atrás. Eu me lembro das minhas juras de amor e dos teus pedidos de “Não me prometa nada!”. Eu não devia ter prometido. Não por mim, mas por você. Eu queria ter cumprido as minhas promessas de amor, as minhas palavras de fidelidade, de compreensão. Eu queria... E eu queria tanto que, de tanto querer, acabei me deixando perder do bem mais precioso que já tive: eu mesmo.
                Hello, stranger! Talvez você não se lembre de como me feriu. Talvez você esteja cansada de mim. Talvez você me ache um tolo. Talvez você continue a acreditar nas tuas verdades. Talvez você não acredite em mim – como não acreditou . Talvez você nunca tenha acreditado no meu amor. Talvez você nunca tenha acreditado no teu amor (?). Eu deveria não ter acreditado. Talvez você esteja cansada, ou sei lá. É tão difícil te definir, minha escuridão. É tão difícil descrever ou deduzir aquilo que se passa por essa tua cabeça perturbada, doentia e insana. Talvez você seja louca, louca de pedra. Talvez eu seja louco, louco de pedra por um dia ter amado você.
                Hello, stranger! Eu sempre acreditei na força das palavras. Sempre acreditei que elas são capazes de mudar o mundo e, enquanto eu te dedicava as minhas melhores palavras, eu tive de você o oposto: as palavras mais cruéis que um homem apaixonado pode ouvir da mulher amada. Foram palavras de desamor. Foram palavras de dúvida, de falta de compaixão, de falta de afeto. Foram palavras de falta de amor.
                Hello, stranger! Eu não consigo mais chorar. Talvez as minhas lágrimas tenham secado depois daqueles três longos dias – lembra do número três? –, talvez eu tenha cansado de sofrer, talvez eu tenha aprendido a mentir como você. Talvez eu tenha deixado a escuridão entrar em mim depois de tanto encará-la nos olhos; depois de tanto te encarar nos olhos. Talvez eu tenha me perdido um pouco de mim, ou melhor, talvez eu tenha me perdido um pouco daquilo que eu achava que eu era. Talvez eu finalmente tenha me encontrado, talvez eu esteja ocupado tentando me fazer feliz.
                Hello, stranger! Você se lembra do nosso primeiro olhar? E do nosso primeiro beijo? Lembra do abraço apertado e suado? Você lembra? Você se lembra de quando me olhou nos olhos e sorriu? Lembra? Você se lembra da época das flores? Você se lembra daquela primavera? Você se lembra do motivo de termos deixado, ou melhor, de você ter deixado que ficássemos resumidos a essas secas e quebradas folhas de louro? Você se lembra de como as tuas palavras me feriram? Você se lembra de como você me humilhou? Você lembra?
                Hello, stranger! Hoje eu queria esquecer. “Pra nunca esquecer”. Hoje eu queria me perder um pouco de mim, quem sabe beber, quem sabe sumir, quem sabe não pensar? Hoje eu queria poder esquecer a tua voz, o teu cheiro, as tuas palavras... As tuas (malditas) palavras! Foram elas as maiores armas que você apontou pra mim: as palavras. Lembra de quando você me procurava, me enchia de palavras de afeto e então desaparecia, como um fantasma?
                Hello, stranger! Hoje eu queria esquecer. Queria esquecer as mágoas, o sofrimento, queria esquecer as humilhações, as brigas. Eu queria esquecer de quando você duvidou de mim, de quando me comparou. Eu queria esquecer todas aquelas malditas palavras. Eu queria esquecer as boas lembranças, os nossos beijos e abraços, os amassos também. Eu queria, como eu queria, esquecer você.
                   (pausa)
                Hello, stranger! Talvez você não se lembre de como eu te amei. Talvez um dia você se recorde de mim como “aquele garoto bobo e inocente” que um dia você usou, que você iludiu. Talvez um dia eu seja o homem que você tanto dizia procurar, talvez um dia você seja a mulher que tanto acreditei existir. Talvez você nem se lembre de mim. Talvez você nem exista mais para mim.
                Hello, stranger! Acho que, no fundo, eu me apaixonei por uma estranha. Acho que você nunca mostrou-se pra mim verdadeiramente. Acho que, no fundo, você nunca foi aquela mulher que eu pensei amar. Que eu pensei amar (ou que eu amei?). Talvez eu tenha me apaixonado pela “garota do blog”, pela garota que nunca existiu.
                Hello, stranger! Perdoa essas minhas palavras. Elas são um simples desabafo. O desabafo de alguém que acredita ter desaprendido a escrever, um alguém que acredita ser incapaz de ser amado. Um alguém que aprendeu, da forma mais dura possível, como o amor pode nos machucar.
                Hello, stranger! Essa é a minha deixa, a minha despedida. É o meu “Felizes para sempre”. Talvez você não leia essas palavras, talvez leia. É tudo tão incerto agora. Aliás, acho que sempre foi. Com você sempre foi.
                Hello, stranger! Essas são as minhas últimas palavras para você. Palavras para te fazer lembrar sobre aquele lugar que só nós conhecemos. São palavras para te fazer um dia se lembrar de quem eu fui. Esse é o ponto final da nossa história e, para evitar que seja um “ponto de continuação”, eu irei rasgar essas páginas; irei queimá-las junto a essas folhas de louro.
                Hello, stranger! Essas palavras foram feitas para você. Pra (você) nunca esquecer que a culpa foi toda tua. Pra (você) nunca esquecer o quanto eu (acho que) amei você! Pra (eu) esquecer que um dia amei você.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

E que se ame! (ft. Ana Luíza Santana)


Música: Halo - Beyoncé

                Uma das maiores complicações existentes no mundo é definir, de uma forma universal, o amor. Para alguns, amor pode ser a presença; para outros, pode ser a presença mesmo na ausência; para outros, pode ser o sexo; para outros, pode ser o beijo; para outros pode ser a união de todas essas “definições” e ainda há aqueles que não concordem com nenhuma delas. A gramática me diz que a palavra amor é um substantivo abstrato, algo que não pode ser tocado. Discordo. Amor não é somente o sentimento, amor pode ser um desenho, uma música, um lugar; amor pode até estar personificado em alguém.
Parece, aliás, livro-me de incertezas e digo com toda a convicção que, sim, existe uma energia muito grande, uma força invisível entre duas pessoas que se amam. Quando perto, sinto o amor ao tocar. Ao beijar e abraçar. Ao olhar nos olhos e enxergar um brilho diferente. Sinto o amor quando penso que eu podia estar com qualquer outra pessoa no mundo, mas estou ali. Com aquela. Só com ela. E por quê? Por que aquela?  Nunca consigo responder totalmente isso. Porque se o amor é indefinido, seus derivados e consequências são quase sempre inexplicáveis.
Amor é querer ficar mesmo tendo que partir, mas levar consigo um pedaço daquela pessoa dentro de si – mesmo quando queremos levá-la por completo. Amor é você olhar para alguém – um alguém que você simplesmente conheceu; de uma forma especial ou não – e sorrir, simplesmente sorrir. Amor é quando o simples toque de duas mãos se faz suficiente. É quando o sexo não é algo apenas carnal, é transcendental. É quando o beijo te faz ouvir aqueles famosos sinos. É quando a vontade de abraçar se resume ao mais apertado dos abraços, um abraço tão apertado que te faz ter a vontade de nunca mais querer sair dali. Amor “é nunca contentar-se de contente”, “é querer estar preso por vontade”; como já diria Luís Vaz de Camões.
Entretanto, apesar de tudo, somente o amor não é suficiente para manter por muito tempo uma relação (seja ela qual for), e isso todos sabemos. Mas ele é tão nobre e foge de qualquer explicação definitiva racional, que somente através dele podemos extrair a capacidade e a força necessária para buscarmos achar ou criar as outras coisas necessárias para se manter alguém conosco por amor. Com amor. Olha que loucura! Somente do próprio amor podemos extrair os outros bens necessários para manter ele mesmo conosco. É, definitivamente, algo surreal. E é isso que o faz tão magnífico. Tão nobre. Tão digno de todo esforço e alegria para/ao tê-lo.  Isso faz dele algo para não se implorar e jamais se jogar fora. Amor é o paradoxo do furacão que nos invade e traz calmaria. É antítese da certeza e dúvida. Amar é bom. Ser amado é maravilhoso. Viver esse sentimento é inexplicável. Amor é aquilo que, por simplesmente existir, já nos faz feliz.  E que se ame e que se dane todo o resto que queira impedir isso. O que vale é amar!

Ana Luiza Santana é autora do blog Bagunça Boa!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Depois do Fim



                “Tudo tem um começo e um fim. Seja o amor, a dor, a vida. Até a morte, do ponto de vista espiritual, tem o seu fim. São passos, compassos, medidas, pesos, balanças; coisas que vão nos guiando aos tais finais, sejam eles felizes ou não.
                Eu defino a vida em ciclos, temporadas de uma ‘série’, coisas que começam de uma forma, terminam e, em seguida, recomeçam, iniciam-se novas histórias e por aí vai. Por mais que a série seja feliz e tenha boa audiência, existem coisas que acabam perdendo o seu valor ou a sua graça ao longo dela. Seja um amor, uma amizade ou outra, uma tristeza, um sonho ou um simples sorriso no rosto.
                Os finais sempre chegam.”
                 Quando comecei a escrever o trecho acima, minha mente refletia acerca de dois fins para mim: o de um amor e o de uma fase em que permiti que as opiniões alheias moldassem o meu futuro e o meu eu. Eu teria continuado esse texto se não fosse surpreendido pela notícia do internamento de uma tia e, consequentemente, a sua morte um dia depois.
                Peço desculpas àqueles que acreditam que certas coisas na vida não precisam ter um fim, mas eles são necessários. Imagina o quão entediante seria a vida se só tivéssemos momentos felizes? Imagina o quão banal seria a vida se ela fosse eterna? A graça do viver está presente na nossa luta diária por momentos que nos farão memoráveis após a nossa morte. A graça da felicidade é justamente fazer valer a pena todos aqueles momentos tristes e assim seguir com a vida, superando, aprendendo, tirando lições e tentando melhorar cada vez mais.
                Sempre achei banal a ideia de que “todos os finais deveriam ser felizes” porque, infelizmente, nem todos serão. O que vale a pena na vida não é esperar aquela felicidade de um final de filme ou de série; mas aproveitar o final, seja ele qual for, e fazer dele um novo começo, uma nova temporada, uma sequência... Fazer desse final uma nova vida! 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Epílogo



As folhas caiam das árvores naquele parque. Em suas mãos, um pequeno caderno onde ele fazia questão de escrever na última página uma reflexão acerca dos finais que o cercavam nos últimos dias. Era como o fim de uma história, era como se todos os seus sonhos tivessem chegado ao fim.
– É como o fim de um livro... – Ele lamentou inutilmente para si.
Começou escrevendo sobre os finais tristes que haviam acontecido. Para ele, havia a morte de alguém que sofria há muito tempo. As lágrimas não desceram. Ele pensou em como aquilo tudo era um alívio para a dor daquela pessoa querida. Por outro lado, ele havia chorado inconsolavelmente por – pela segunda vez – ter sido partido por aquela que ele mais amou.
– Mais uma vez... – Ele lamentou novamente.
Uma lágrima insistiu em escorrer pelo seu rosto e ele deixou que ela rolasse. Não havia ali mais vergonha de chorar. Ele abraçara a sua humanidade e se permitira debulhar em lágrimas mesmo que não fosse uma “atitude de homem”. Ele chorou, fechou o caderno, ergueu às mãos ao rosto e chorou por longos vinte minutos. Ao fim, com os olhos vermelhos, enxugou-os na manga da camisa; catou a caneta no chão e voltou a escrever.
Escrevera sobre a mágoa que tivera mais uma vez com aquela mulher que ele mais amou, que ele mais quis ter ao seu lado, e que foi a que mais o feriu. Tão profundamente quanto uma espada. Ela o magoara, o comparara a outro alguém, pisou em seus sentimentos e o humilhou. Ele, no auge da sua tristeza, dissera a si mesmo que não era capaz. Intensificou em si a culpa, feriu-se mais ainda e, por fim, chorou mais e mais. Não era dele a culpa por amar, por desejar ter aquilo que todos os outros casais tinham: a cumplicidade, o amor, a felicidade, as brigas que eram resolvidas com concessões e que, depois, viravam motivo de piadas.
– Não era minha culpa... – Ele repetiu para si finalmente enxergando a verdade.
Enxugou as novas lágrimas que brotavam de seus olhos e continuou a escrever. Escreveu sobre as amizades que não o valorizavam, escreveu sobre como ele havia se tornado um depósito de sentimentos alheios. Por fim, chegou aos finais felizes. Os romances que o rodeavam, as amizades que surgiam, as amizades que partiam, as novidades, as oportunidades, tudo mais.
Parou de escrever quando faltava metade de uma página. Aquele era o lugar reservado para a sua autobiografia, onde ele poderia escrever sobre o seu “final feliz”. Parou por alguns instantes, pensou e pensou, chorou, sorriu, lembrou, hesitou. Não havia o que escrever. Seu final havia sido escrito pouco antes quando ele citara a sua desilusão/decepção. Justo ele, o protagonista da sua história, não tivera o final que merecia, o final que esperava.
Por mais que a vida ainda o pudesse surpreender, seu coração havia parado drasticamente. E embora tal situação fosse trágica, a poesia se fazia presente em sua história. Por mais que um novo amor surgisse, por mais que sou coração tentasse palpitar mais uma vez, seu corpo já estava frio, já não tentava mais esboçar o calor que em outrora o fizera sorrir. Foi ali, em meio a tantas decepções e perdas, que ele finalmente encontrara o que mais havia procurado: ele mesmo.
Com sua letra usual, escreveu “Fim” no canto da folha. Fechou o caderno, colocou-o na mochila e saiu. Caminhou lentamente até a sua casa, admirando as folhas caídas, o vento em seu rosto e as pessoas que passavam. Após um banho, sentou-se com uma xícara de café em mãos, puxou da mesma mochila um outro caderno. Abriu-o na primeira página, puxou a mesma caneta e escreveu: “Querido diário, hoje é o primeiro dia de uma nova vida...”.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

1/285000



                Recentemente me disseram que temos 1 chance em 285 mil de encontrar e se apaixonar pela pessoa ideal. Passei anos e mais anos acreditando em tal chance de viver aquele amor épico, cinematográfico; mas acabei percebendo que essa busca era mais difícil do que parecia. Por mais que o meu coração palpitasse e batesse por algumas garotas ao longo de tal período, percebi que tudo não passava de um encanto inicial e que, aos poucos, ele ia se desfazendo. Aquela 1 chance tornava-se uma das 284999 que poderiam dar errado.
                Muitas pessoas me julgaram por ser romântico. Diziam que eu era imbecil, iludido, trouxa e que jamais encontraria alguém ideal. De fato, eles estavam duplamente certos. Primeiramente, fui um baita imbecil ao acreditar em juras de amor, em acreditar em doces palavras que não passavam apenas de jogos. Segundamente, por tais pessoas falarem que eu jamais encontraria alguém ideal. Eles estavam certos: não existe um alguém ideal.
                Nos romances, sempre vi que as pessoas eram encantadoras pelas suas personalidades marcantes, pelas suas qualidades e que seus defeitos malmente eram citados. Bentinho seria realmente tão ciumento ou tudo não passava de um jogo de Capitu para enlouquecê-lo? Onde estavam os defeitos que aproximariam tais personagens da nossa realidade?
                Vivemos uma época onde os romances parecem ter perdido a sua credibilidade – em sua maioria. As pessoas se prendem em relações vazias, traem, julgam, não acreditam naqueles que os amam, criticam, comparam, humilham e, ao fim, ainda buscam ter a “razão”. Vivemos em uma era onde os egos falam mais alto, onde os jogos de conquista tornaram-se mais nítidos e onde o que mais interessa é ganhar mais curtidas e seguidores. Quanto mais pessoas nos bajulando, melhor. Infelizmente.
                Eu ainda acredito no amor. Por mais que me critiquem, que me façam chorar, sofrer, que me façam me arrepender de todos os momentos e palavras; eu acredito. Acredito e vou morrer acreditando no meu ideal de que, um dia, eu encontrarei alguém que, aos meus olhos, poderá ser “ideal”, mas não por simplesmente ser “a garota ideal”.
Eu quero um “amor ideal” onde não vão importar somente aparências, beijos e abraços, mas a vontade de querer dar certo. Eu quero um “amor ideal” que não me julgue, que não me peça para mudar, que não me faça chorar. Eu quero um “amor ideal” em um mundo onde ela irá confiar em minhas palavras de alerta, onde não existam joguinhos de ciúmes e/ou comparações. Eu quero um “amor ideal” que saiba me amar com todas as minhas qualidades e defeitos, assim como eu a amarei de tal forma. Eu não quero ter a única chance dentre 285 mil de encontrar e me apaixonar pela pessoa ideal, mas quero ter a única chance dentre as mesmas 285 mil de me apaixonar por alguém e encontrar com ela todas as chances possíveis e impossíveis para fazer o nosso amor dar certo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A Garotinha



                “E lá estava eu: quieto, calado, sozinho, triste. Foi quando surgiu a pequena garota, a garotinha do sorriso doce, alegre, com a aparência de uma menina de dez anos, mas a maturidade de alguém de sessenta. Eu a conhecia há um tempo e havia algo nela que me encantava, que me fazia enxergar um eu que não existia mais. A diferença de idade não era tão grande; ela tinha quinze, eu tinha vinte e um. E ao contrário do que alguns já podem estar pensando, não se tratava de uma história de amor clichê, tratava-se de uma conexão. Sempre que eu a encontrava, apertava suas bochechas e algo em mim fazia com que eu sorrisse. Ela era pura, com uma alma tão pura quanto a de um anjo. Ela sorria pra mim de forma tímida e eu sentia um amor tão grande quanto o de um pai para uma filha.
                – Pode ver se gosta, tio Aníbal? – Ela sorriu, me chamando da forma que eu impusera que ela me chamasse.
                Olhei os textos e deduzi que fossem dela. Textos tão puros e mágicos quanto a alma daquela garotinha.
                – São teus? – Indaguei e ela confirmou.
                Um sorriso se preencheu no meu rosto. Havia mais uma paixão em comum entre eu e aquela garotinha que parecia adivinhar meus momentos de maior tristeza e me surpreender com mensagens do tipo “Nunca deixe de ser quem você é!”. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto devido ao orgulho ou a minha tristeza.
                – Por que você se escondeu por tanto tempo, menina?! – Perguntei sorrindo.
                – Eu ainda estou meio escondida... Sei lá... Tenho medo... Das pessoas. – Ela riu. – Não acho bom o suficiente. Só mostrei para pessoas muito próximas.
                Ela parecia comigo. Foi quando olhei ao meu redor e vi o que havia feito recentemente. Pelo medo das pessoas, eu havia perdido alguém que eu amava. O meu medo, a minha insegurança, todos os meus problemas. Eu havia permitido que o medo controlasse quem eu era e acabei machucando quem eu amava.
                – Suas palavras são lindas! Não tenha medo! Não faz que nem eu. Não se esconde com medo das pessoas. Não seja um ‘eu’. Não deixa que o teu medo te controle. Bota um sorriso no rosto e mesmo que ele seja falso, se joga à multidão. Não se impeça de ser feliz. Se permite, se joga, fala, grita, berra, ama, sofre, faz o que for; mas não se esconde por medo. Ele pode nos destruir se a gente não deixar.
                Ela ainda não sabia do que o mundo era capaz, ela não sabia que o mundo iria feri-la várias e várias vezes, que as pessoas iriam trai-la, que iriam mentir, sumir, fugir; mas ali, naquele momento, eu tive uma das maiores certezas da minha vida: eu estaria com ela pra o que desse e viesse. Eu não ia impedir que o mundo a fizesse chorar, mas eu ia fazer questão de estar com ela todas as vezes que isso acontecesse para poder enxugar as suas lágrimas e impedir que um dia ela se tornasse como eu. Para impedir que um dia ela pudesse sabotar a sua própria felicidade. Para impedir que um dia ela afastasse alguém que ama. Para impedir que ela cometesse os mesmos erros que eu.”

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O pé de Alface


                Dia desses me contaram que, para se plantar um pé de alface, temos de colocar várias sementes juntas e, com o passar do tempo, ir removendo aquelas mudas que nascem de forma “imperfeita”. Nunca plantei alface – e essa conversa me deixou com vontade de fazer isso –, mas fiquei intrigado, já que a mesma pessoa que contou essa história me disse que eu deveria ser uma pessoa mais persistente. Foi então que indaguei: “E por que não podemos tornar aquelas plantas ‘perfeitas’?”.
                É engraçado como julgamos a imperfeição das coisas. Em nossas vidas, somos forçados diariamente a lidar com casos e mais casos. Alguns possuem soluções rápidas, imediatas, e outros possuem ainda mais casos desenrolados daquele problema inicial. O que move o mundo são as perguntas? Então o que move a vida são os problemas. Passamos dias e mais dias tentando lidar com os problemas, resolvendo, lutando, enfrentando, acomodando, sorrindo, enfim... Lidamos das formas mais diferentes possíveis com inúmeras situações, encontrando respostas, sossegando por alguns segundos para, enfim, respirar. Não. Não podemos respirar tão fácil.
                Muitas pessoas acreditam na lógica da evolução linear do homem (aquela do homem bruto, primata, até o homem moderno), porém, ao contrário do que se pensa, tal evolução se deu de forma complexa: inúmeros ramos de uma árvore repleta de acasos, problemas, outros problemas, soluções e mais problemas. Vivemos em uma imensa árvore de evolução em nossas vidas. É uma árvore que nos aponta a inúmeras direções, a inúmeros destinos e que, a depender das nossas escolhas, nos levarão a finais diferentes.
                Viver é como plantar vários pés de alface. Alguns dos nossos desejos crescem, outros morrem, sonhos nascem. Por mais que reguemos nossa horta de alface, alguns daqueles pés crescerão de forma diferente, imperfeita aos olhos dos outros, mas ainda assim serão alfaces – terão o gosto de alface. Assim são os nossos sonhos e a vida. Embora os problemas nos atinjam, embora sejamos forçados a lidar com eles, embora essas “alfaces” cresçam tortas; nós escolhemos se vamos jogá-las fora ou se vamos moldá-las ao nosso gosto. No fim, não importa como elas crescem, o que importa é colhê-las.