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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sentir


                “Então é isso? Todos esses sentimentos, esse medo, essa angústia. É dessa saudade que falam? Ah! Como é bom poder deitar nas tuas palavras, que sempre me acalmam... Como é bom ter aqui, comigo, os teus abraços fraternos, os teus beijos eternos em um piscar de olhos. Os teus olhos, a minha janela. Querer te encontrar, roubar todos os beijos possíveis e os impossíveis, sentir os teus dedos se entrelaçando aos meus em um encaixe mais do que especial. Perfeito.
                A saudade aperta. Para muitos pode ser tão pouco, a distância, o tempo... Tudo tão pouco, mas não menos intenso. Acho que é isso que significa gostar de alguém. Acho que é isso querer poder te abraçar, te beijar, sentir o teu calor, sentir meu coração pulsar rapidamente, parar bruscamente e ainda assim continuar a viver.
                Eu quero buscar você. Buscar os nossos momentos, matar a nossa saudade, deixar que a realidade se faça presente. Eu quero sentir a minha mão tremer, o meu coração bater. Eu quero encontrar o teu olhar. Eu só quero você.”

sábado, 6 de junho de 2015

Pinóquio



                Acho que, na infância, todos tínhamos algum desejo oculto. Muitos queriam ser um super herói – eu queria ser o Tai de Digimon, não julguem –, outros queriam algum brinquedo... No fundo, o que eu mais desejava era que os meus bonecos falassem. Acho que, por ser filho único, por não ter tantos amigos e por não querer tê-los, eu gostava do meu “infinito particular”. Gostava de viver entre bonecos, livros e qualquer objeto que pudesse transformar em um castelo, uma fortaleza... Dentre todas as minhas histórias, a que eu mais gostava era a do Pinóquio, o boneco que queria ser gente e que não poderia mentir. Sempre fui um inimigo das mentiras. Até mesmo as pequenas.
                Recentemente, ao caminhar, uma notícia pairava em minha mente: “Morre o Ken Humano!”. Ironia. Morre o Pinóquio moderno: o homem – ou garoto – que queria ser boneco. De fato, minha comparação parecia ser sincera: a história estava invertida. Creio que, quando Pinóquio foi criado, vivíamos em mundo onde o enaltecimento do ser humano era mais fervoroso. Enxergávamos a nossa supremacia, criávamos e controlávamos máquinas. Hoje as máquinas nos controlam. Vivemos reféns de celulares, computadores e tantos outros aparatos tecnológicos. Já somos robôs.
                Cinderela não mais espera o seu príncipe encantado. Chapeuzinho Vermelho não mais passeia pela floresta por causa da violência. O lobo mau não mais existe – coitado! –, foi caçado e virou um tapete de algum homem rico. Os três porquinhos, se fosse humanos, não precisariam construir suas casas. Se fossem porcos, já teriam sido assados em algum fim de semana familiar. Príncipes abandonaram cavalos e compraram seus carros. Vivemos em um mundo onde a magia, onde a fábula, deixou de existir. Vivemos no mundo do contrário. Ser humano não é mais utópico, é realidade. Hoje, os poucos que sonham, ignoram a humanidade porque veem, nela, que não há mais perfeição. A crueldade do ser humano se faz presente e mostra as caras todos os dias. Somos nossos próprios vilões.
                Queremos ser bonecos. Queremos um mundo utópico onde haja um “felizes para sempre” e não um “até que morramos num assalto ou num acidente”. Queremos ser bonecos para tentar viver um pouco dos sonhos de uma criança. Se bem que, hoje em dia, até mesmo as crianças estão perdendo a essência do “sonho”, da “mágica”. Por mais que digam que um adulto não deva sonhar, que ele deva encarar a realidade seca, dura e fria; eu renego essa convenção. Continuarei a sonhar, continuarei a viver a minha infância mesmo que em pouca parte do tempo. Eu não quero ser apenas mais um humano ou apenas mais um boneco... Eu quero apenas sonhar, rir de coisas idiotas e, ainda assim, ser um adulto. Eu quero a cor de sonhos e ilusões, mas sem perder o toque de realidade. 
                Em um mundo com tantos “humanos”, humanidade é o que menos existe. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Arco-Íris



                “O tempo passa, as pessoas passam, os carros e seus motores também passam. Eu estou parado, preso, gélido, assustado, com medo. Medo... Dizem que, à medida que envelhecemos, ele para de nos controlar. Pura mentira. Medo de morrer, de envelhecer, de sofrer, de amar, de viver.
                Da janela do meu quarto, eu vejo o tempo passar. A clausura me tornou inerte, frio, apático e, até mesmo, insensível. Uma criança presa no corpo de um homem com a alma de um velho. Sonhos presos no corpo de quem pode realizá-los, mas está cansado demais. A velha coragem freada pela mente de um jovem assustado.
                Agora chove. Em contrapartida ao meu frio coração está o calor de uma cidade tipicamente tropical. Um homem recluso em um lugar onde tudo vira festa. Perdoem-me, meus compatriotas, mas não estou pronto a viver tamanha felicidade gratuita. Sou um homem das palavras, cercado de âncoras e freios. Âncoras e freios. Estou preso e minhas forças esvaem-se.
                No céu, bem ao fundo, atrás de um prédio tão cinza quanto as nuvens e a cidade, há um arco-íris. Minha racionalidade explica tal fenômeno como a decomposição da luz. Sete cores. Sete novas formas de enxergar algo, até então, tão natural e comum. Estamos tão acostumados com a luz que ao vê-la na sua real forma, ficamos bestificados com tamanha beleza.
                Para muitos, aquele era mais um arco-íris. No fundo, algo em mim dizia que era um sinal do antigo clichê de que após a tempestade sempre haverá um arco-íris onde o pote de ouro é a chance de felicidade, um sopro de vida. A esperança é o que nos move.
                A tempestade passou, a janela eu abri, o tempo continua a passar, as pessoas continuam a caminhar. Porém, agora eu percebo que sou capaz de remover todos aqueles freios e âncoras. Agora eu percebo que sou a minha única esperança. Eu sou a minha felicidade. Uma criança no corpo de um adulto com alma de velho. Um adulto que, por mais velho que pareça, não consegue deixar de existir, deixar de sonhar, deixar de viver...”