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terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Céu dos Passarinhos



                 Hoje o dia foi triste. Silencioso. Não ouvi o cantar, os assovios, nada. Ele – o marido dela –, um periquito australiano das penas azuis, pretas e brancas, também não cantou. Nada. Ficava parado, olhando para um ponto fixo fora da gaiola: o lugar onde eu a depositei ao retirar seu corpo.
                Era tarde. Ao passar pelo local, olhei em direção a eles – sempre soltando uma piada, falando algo – e a vi, quietinha, parada num canto. Cheguei mais perto e ela veio ao meu encontro, mancando, abatida. Larguei o que estava fazendo, puxei uma cadeira e sentei ao lado da gaiola. Ela foi para a porta, como sempre fazia – ávida para beliscar meus dedos e cravar suas finas unhas em minha pele. Peguei-a em minhas mãos e ela ficou ali deitada, quietinha, calma, sossegada – como nunca ficara. Meu coração se encheu de tristeza, comecei a chorar copiosamente enquanto alisava as suas penas e acarinhava sua cabeça – como ela gostava que apenas seu esposo fizesse –, enquanto ela fechava os olhos imaginando sei lá o quê. Vê-la em minhas mãos tão quieta era uma tortura, um martírio. As penas amarelas e brancas formando um contraste com a minha pele. Ela se sentia segura e eu podia ver isso nos raros momentos em que ela abria os olhos.
                Coloquei-a de volta em sua casa, enquanto eu tentava me acalmar e parar o choro – que eu classificaria como descontrolado. Podem me achar tolo: eu chorei por um pássaro. Um “simples” pássaro que, pra mim, era um alguém; um dos mais importantes alguéns que eu pudera encontrar. Ela caminhou em direção à vasilha da comida e tentou subir. Não conseguiu. Coloquei-a no chão da gaiola e ela caminhou em direção ao lugar que mais amava: dentro daquela vasilha de metal. Colocou as patas na borda e enfiou a cabeça lá, como se quisesse esconder alguma coisa. Seu marido tentou se aproximar, mas ela não deu ousadia. Ele bicou, puxou uma das penas da asa esquerda, mas dessa vez ela não reagiu. Eu, como sempre remediador, o afastei. Ele foi para longe, olhando pra sua amada.
                Eu chorava. Chorava muito. Não queria que ela partisse. “Humano idiota que chora por passarinho” – alguém poderia dizer e eu concordaria. Prefiro ser um idiota a não ter sentimentos. Parece que ela sabia que, se morresse por volta daquele horário, eu sofreria mais. Ela esperou. Quase 8h. Quando eu já estava mais calmo, notei-a caminhando lentamente, mancando, em direção a sua vasilha – SUA vasilha; ai do seu marido que ousasse comer enquanto ela estivesse se alimentando ou levaria bicadas violentas na cabeça. Ela não conseguiu subir. Aproximou-se da parte traseira, empurrou um pouco e repousou a cabeça ali, quieta, sozinha, com a respiração ficando mais lenta a cada vez que eu olhava. Logo ela – que sempre fora tão exibida inclinando a cabeça quando eu indagava “Como olha pra papai?” e ela pirraçava, olhando apenas quando minha mãe falava – resolveu se esconder. Creio que ela não queria mostrar a sua dor, nem cantá-la alto.
                Quando chegou aqui, era filhote. Já tinha o mesmo tamanho, mas era um bebê. Mesmo sendo tão simples a sua penugem, eu me encantei. Quando chegamos em casa, notei um problema: ela não voava. Tentava, tentava, tentava e não conseguia – como o pássaro de um dos meus filmes favoritos “Rio”. Parecia estar doente, mas eu não quis devolver. Ela não aprendeu a voar, apenas dava rompantes quando se assustava ou quando brigava com seu marido; mas ela já nasceu sabendo amar. E ela demonstrou o seu amor por mim, por minha mãe e pelo seu marido em cada gesto, cada detalhe; cada virada de cabeça – com a pata apoiando na gaiola –, com as acrobacias, com os pulos em minhas mãos quando eu tentava colocar a comida e, até mesmo, com os gritos matinais, sempre altos e que proibiam qualquer um de falar ao telefone. Ela gritava e quando eu aparecia, cessava. E os gritos continuavam quando eu desaparecia de seu campo de visão. Quando a comida ou a água acabavam, novos gritos. E eu podia diferenciar cada um deles.
                Ontem ela cantou pela última vez. Canto suave de passarinho. E eu senti falta, muita falta, das nossas “brigas” – sim, um homem de 22 anos idiota fingindo uma briga com um casal de periquitos australianos – e, principalmente, da sua pureza. Hoje seu marido ficou em silêncio durante todo o dia. Cheguei perto, como se ele pudesse me entender, e disse que entendia tudo aquilo. Chorei. Ele olhando ao redor, procurando, me encarando. Uma lágrima insistente, de saudade de uma “reles” – como muitos poderiam dizer – periquita.
                Ontem ela voou. Voou rumo ao “céu dos passarinhos” – como um amigo bem colocou. Restou apenas um aperto no peito, uma saudade chata, um silêncio insuportável e lembranças de cinco anos que NUNCA serão esquecidas.

sábado, 20 de agosto de 2016

Querido Eu

Querido Eu,

Acho que essa carta vai chegar tarde demais. Infelizmente não pude evitar que acontecesse com você tudo aquilo pelo que passei. Vai doer e eu bem sei disso. Peço perdão por quebrar as tuas doces ilusões, mas essa nada mais é do que a verdade.
Você ficará só. Os amigos que um dia você tanto quis bem, vão te deixar pra trás. No pior momento da sua vida, a solidão vai ser a sua melhor amiga. Alguns deles ainda vão te procurar, principalmente no momento em que precisarem; mas não se chateia. Isso é bom. Você tem algum valor. É bom ser importante pra alguém nessas horas. Mesmo que seja SÓ nessas horas. Isso mostra o quão bom você é.
Você vai se apaixonar. Só sei que vai doer. Muito.
A maioria dos sonhos que você tem não serão realizados. Isso vai doer. Você vai olhar ao redor e vai enxergar apenas a solidão, um vazio existencial. Como se nada fizesse sentido. Ninguém vai te ouvir, te abraçar, estender a mão e sequer cuidar de você.
Não sei se já chegamos ao ponto em que alguém que fora importante te chamou de egoísta ­– mesmo admitindo depois ter sido da boca pra fora –, mas talvez você precise ser assim. Eu queria te ajudar, te poupar da dor que passei. Queria fazer com que tudo fosse melhor pra você; mas eu não posso mais.
É como o fim de uma história. É como se todos os personagens estivessem se encaminhando para o grande final e você estará traçando o seu destino, tentando mudar, tentando aliviar tudo aquilo que te aconteceu. As mágoas, as decepções, as humilhações, os fracassos. Tudo vai passar.
Quando você chegar ao ponto em que me encontro, quero que escreva para si, para um “eu” de outrora que ainda acreditava em tantas coisas tolas ao seu redor. Sei que não vai adiantar, mas alivia.

Com carinho,
você daqui a uns anos!


P.S.: Esse é só um lembrete pra nunca esquecer quem você é e, muito menos, quem você foi.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Scream – Hipóteses Sobre o Assassino (Segunda Temporada)!


                Após os acontecimentos não tão surpreendentes da season finale do ano passado, três meses se passaram em Lakewood. Emma (Willa Fitzgerald) retorna para casa após um período reclusa para se recuperar dos eventos traumáticos.  Antes mesmo da nossa final girl aparecer, Audrey (Bex Taylor-Klaus) – que no último episódio da primeira temporada foi vista queimando cartas recebidas de Piper (Amelia Rose Blaire) – passa a receber mensagens de texto assustadoras, dando a entender que alguém sabe da sua ligação com a filha de Brandon James.
                Em Lakewood, Emma reencontra seus amigos. Além de Audrey, ela é recepcionada por Noah (John Karna) – que “herdou” o podcast de Piper e o nomeou “The Morgue” (O Necrotério) –, Brooke (Carlson Young) e Jake (Tom Maden) – que agora mantém um caso secreto –, Audrey e Kieran (Amadeus Serafini) – que agora tenta seguir em frente após a morte do seu pai (não sentimos a menor falta daquele xerife burro). Além disso, Emma tem sempre o apoio de sua misteriosa mãe, Maggie/Daisy (Tracy Middendorf), que parece não se cansar de ter segredos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Fim



Aos poucos as últimas palavras vão sendo escritas. O final da história vai sendo desenhado aos poucos. Eu, justo eu, que sempre odiei despedidas, acabo me tornando refém delas. Despeço-me de amigos, de partes de mim... Busco novos recomeços, novos horizontes. Tudo se renova.
                Parece o velho clichê do “final feliz” acontecendo ao meu redor. A ansiedade me corrói. É normal. Pareço finalmente ter tomado as rédeas da minha própria vida, de ter assumido a máscara de protagonista da minha própria história. Como na maioria delas, os protagonistas são sempre os últimos a sorrirem. Sempre nas últimas páginas, nas últimas linhas. No ponto final.
                Eu sempre odiei despedidas. Odiei e as odeio com toda a força que ainda tenho. Busco renovar, recomeçar; mas pareço estar sendo massacrado com estúpidos flashbacks colocados apenas para render mais algumas páginas. Para me atrasar, me impedir.
                Chegou a hora da despedida. É hora de partir, de deixar o passado para trás, esquecer os fantasmas e recomeçar. É chegada a hora de dizer o adeus definitivo a quem partiu, a hora de escrever a última linha desse capítulo final para, quem sabe, um dia continuá-la.
                É hora de recomeçar.
                De amar.
                De existir.
                De resistir.
                De ser feliz.