Páginas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Presente de Natal



                “Querido Papai Noel, obrigado pelo meu presente. Aliás, o senhor caprichou no presente desse ano hein?! Chegou na hora certa, com a intensidade certa, com tudo no mais perfeito lugar. Quem diria que justamente o senhor iria me presentear com um amor hein?!
                Eu achei que tivesse sido um mau menino – dada as últimas circunstâncias –, mas o senhor surge e me dá um belo presente. E que presente! Um dos sorrisos mais belos que já vi, um dos abraços mais apertados que eu já recebi, um dos olhares mais sinceros que já tive. O beijo mais doce, mais leve, com a intensidade medida na frequência correta – se bem que intensidade e frequência são grandezas diferentes, mas não quero ser tão racional –, tudo tão perfeitamente calculado que chega até a assustar. Foi justo ali, onde eu menos esperava encontrar, no presente mais afastado, que eu encontrei tudo aquilo que eu precisava, ou melhor, tudo aquilo que eu merecia.
                Não sei se isso que aconteceu agora foi destino, sina, carma, algo escrito nas estrelas. Não sei se foi presente divino ou um presente de Papai Noel, do Coelhinho da Páscoa ou do que quer que seja. Parei de me questionar tanto sobre as origens dos sentimentos, das coisas que vêm do coração. Parei de buscar maneiras de terminar histórias, de fugir delas; parei de imaginar supostos finais que terminariam em lágrimas. Parei de tentar seguir tanto a razão. Ou melhor, o medo que vem de tanto se pensar.
                Querido Papai Noel, se foi realmente você que me deu esse presente de Natal; então eu te digo: esse foi o melhor presente que eu recebi nos últimos anos!” 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Dois Corações



                Era uma vez um coração assustado. Era um coração grande, machucado, ferido, que se escondia incansavelmente perto de dois pulmões saudáveis. O coração, abatido, chorava horas e horas por um antigo amor. Ele tentava se reerguer várias e várias vezes, mas parecia estar numa roda gigante que nunca parava e nem o permitia descer.
                Era uma vez um coração assustado. Ele era um coração tão medroso que tinha medo da tristeza e da felicidade. Fugia na felicidade com medo da tristeza, fugia na tristeza em busca da felicidade. Era um coração meio masoquista o danado, mas sabia o que queria: viver uma história que o fizesse sorrir. Não precisava durar uma vida inteira. Quem sabe um verão ou inverno? Um dia, dois ou, até mesmo, três?
                Era uma vez um coração assustado. Ele costumava correr para as montanhas em qualquer chance de felicidade e era lá onde ele se refugiava quando estava triste, para onde ele fugia. Coração bobo, infantil, imaturo, que carregava consigo tanta vontade de viver, mas um medo implacável que ele não conseguia controlar. Pobre coração!
                Era uma vez um coração assustado. De tanto se isolar, ele sentiu a solidão. Ficou completamente só, destruiu sonhos, perdeu amizades, fugiu do amor e se afundou na dor, uma dor tão profunda que ele não conseguiria suportar sozinho; mas ele teve que aprender a fazer isso. Em meio à solidão, esse coração encontrou abrigo em si mesmo: ao lado daqueles dois pulmões saudáveis.
                Era uma vez um coração assustado que se reencontrou aos quarenta e cinco do segundo tempo. Reencontrou-se em si mesmo. Um coração que tanto buscou a felicidade fora dele que acabou encontrando-a onde menos esperava no final das contas. E foi assim, com a felicidade em si, vinda de dentro dele, que ele conseguiu se permitir. O velho coração assustado reencontrou um outro coração assustado – um coração conhecido –, tão assustado como ele e que havia se isolado da mesma forma por motivos semelhantes.
                Era uma vez dois corações assustados, medrosos, que, cansados de sofrer, encontraram a felicidade neles mesmos e resolveram compartilhar aquilo tudo um com outro. Era uma amizade, carinho, paixão, amor, o que fosse. O que importava para aqueles dois corações assustados não era o rótulo criado para os seus sentimentos um pelo outro. O que importava para aqueles dois corações assustados não era o medo do passado nem do futuro. O que importava para aqueles dois corações assustados era poder ouvir as batidas do outro quando eles se encontravam num abraço apertado quase esmagador. O que importava para aqueles dois corações era apenas a presença, o “poder contar”, o carinho.
                Era uma vez dois corações assustados que encontraram neles mesmos o que precisavam.
Era uma vez dois corações assustados que encontraram um no outro o que eles mereciam.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Querido Papai Noel

Foto tirada por mim em dezembro de 2014.


“Cansado, ele tirou a roupa que trajara durante todo o dia. Como toda armadura, aquela era pesada, quente; mas ele sentia prazer naquilo. Vestir-se de Papai Noel tornara-se um desejo, uma vontade que gritava tão alto que o fizera deixar seu mês de férias como o mês do Natal – não por parentes ou amigos, mas pela emoção de usar aquela roupa e levar alegria para algumas pessoas no meio das ruas.
Raul sabia do trabalho árduo. Passava os dias nas ruas com alguns pequenos presentes – uns feitos por ele, outros comprados em lojas baratas –, ele também levava flores e entregava para algumas das pessoas que passassem por ele. Não precisava ser criança, não precisava pedir nenhum presente de Natal; ele apenas fazia aquilo que o seu coração mandava. Fazia com amor, paixão, satisfação e, acima de tudo, gratidão. Raul era um bom homem, sorria para todos, arrancava sorrisos tão enormes quanto os dele. Porém, no fundo da sua alma, havia algo escuro, algo que encobria o seu sorriso e somente poucas pessoas conseguiam enxergar.
Ele tomou seu banho, comeu, vestiu uma roupa qualquer e sentou-se no sofá. Era véspera de Natal. De sua casa ele podia ouvir os gritos comemorativos, as músicas natalinas, o cheiro da comida que invadia o lugar e o fazia pensar, refletir e, até mesmo, chorar. Foi então que Raul buscou uma pequena caixa de madeira. Abriu-a em seu colo e sentiu novamente aquele cheiro de lavanda. Ali havia uma flor seca, uma carta e uma foto. A flor fora a primeira que ganhara daquela mulher que tanto amou. A foto fora a que marcou um dos dias mais felizes da sua vida. A carta era a lembrança do dia que ela o deixou. Nela, agora, as palavras pareciam apagadas, totalmente desconexas, sem sentido. Não havia motivo aparente para o fim. Ele havia feito tudo da forma mais correta possível: amou, não traiu, compreendeu, escutou, cuidou; mas se esquecera do mais importante: enxergar. De tão cego de amor, Raul sequer enxergou que a mulher da sua vida não era mais a mesma.
Flávia partiu deixando as palavras de que “não se sentia mais feliz e que não conseguia amá-lo mais”. Seu coração tornou-se uma incógnita. De dia, ele era frio, um homem fechado que chegava ao trabalho, não cumprimentava quase ninguém – exceto o porteiro, um amigo de longa data – e fechava a cara para toda e qualquer piada que os homens pudessem fazer. Ele não sentia prazer em conversar com ninguém. Calou-se para a vida. À noite, ele tornava-se o seu verdadeiro eu: chorava, pensava em “n” formas de como acabar com o seu sofrimento – seja na vida ou na morte –, mas de nada adiantava. No fundo, Raul ainda acreditava que a felicidade podia bater a sua porta, que a mulher da sua vida podia aparecer novamente, sorrir, pedir perdão e pular nos seus braços. Todas as vezes que batiam na porta de sua casa, seu coração se enchia de alegria, como se ela ali viesse uma vez ou outra, desse-lhe esperanças e então voltasse atrás. Porém, ela não faria isso. Ela não o magoaria intencionalmente.
Véspera de Natal. Sete anos antes. Ele chegara em casa do trabalho e lá estava aquela carta. Desde então, suas noites de Natal foram as mais tristes possíveis. Nada de festas, nada de amigos e/ou parentes. Ninguém. Enquanto ele chorava e se afundava nos mais profundos vícios, nenhum dos seus amigos ousara perguntar sobre o seu estado. Alguns perguntavam, mas em nada se propunham a ajudar, soltavam um “vai passar!”; outros apareciam quando bem lhes entendia e Raul tratava de mandá-los embora. “Oportunistas! Interesseiros!”, era o que ele vociferava para todos aqueles que o buscavam pedindo algum favor. Foi então que, poucos dias após a partida do seu grande amor, ele fora surpreendido por uma pequena garota de rua que entregara em suas mãos uma flor, uma flor tão bela como a que estava naquela caixa. Uma flor que ele guardara em outro lugar tão especial quanto aquele. Naquele momento, quando Raul pensou que a vida jamais iria sorrir para ele, que ele fora surpreendido. Havia um sorriso enorme estampado no mundo, um sorriso maravilhosamente belo. Ele sabia o que faltava em sua vida: um motivo. Passou o ano seguinte juntando dinheiro, comprando presentes, cultivando flores que haviam sido filhas daquela que ele recebera da garotinha. E então a magia se fez.
Por mais que houvesse a tristeza em sua vida, Raul encontrara o motivo que faltava para viver. Todas as vezes em que os pensamentos ruins invadiam a sua mente, ele se lembrava daquela garotinha, se lembrava de como poderia arrancar sorrisos tão belos quanto o que lhe fora arrancado naquele dia.
Agora, sentado, sozinho em sua casa, Raul mais uma vez questiona-se se aquilo realmente vale a pena. De que adianta arrancar sorrisos e mais sorriso se nele faltava justamente o que ele queria levar: felicidade e amor? Já passava da meia noite. Entre os últimos goles de uma garrafa de whisky, ele ouviu os gritos das crianças com seus presentes deixados por Papai Noel. Um misto de alegria e tristeza inundou tomou conta dele. Um sorriso, em meio às lágrimas, se fez presente. E então, como uma doce criança que espera o seu presente de Natal, ele olhou pela janela, sorriu para o céu; mas dessa vez não pedira a Papai Noel para ver novamente o sorriso da mulher que ele amava porque, após sete anos, seu desejo havia se realizado no meio da rua, ocasionalmente, sem expectativas e sem ela o reconhecer. E dessa vez, diferente de todos aqueles anos anteriores, ele apenas pediu para que fosse amado mais uma vez.”

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Diálogo de um amor ferido



                “– Então quer dizer que você me ama? – Ela indagou.
                – Amo. Amo com todas as minhas forças. Eu sou extremamente apaixonado por você.
                – Que lindo! Você me faz sorrir quando diz isso. – Pude ver um sorriso bobo se formar no rosto dela.
                – Não é lindo. Não é lindo amar você.
                – Por que não?
                – Porque não é bom amar quem não ama a gente, quem não cuida da gente. É bom amar alguém que nos trate com valor, que nos respeite, que não pense que nos tem na hora que quiser. É bom amar alguém que, mesmo não te amando, te respeite; que diga o que quer que seja, que aquele é o momento errado, o lugar errado ou, até mesmo, que você é a pessoa errada. Não é bom amar alguém egoísta, alguém que só pensa em si e que só te procura nas horas em que a mente está confusa. Não é bom amar alguém que volta de tempos em tempos, diz que ‘gosta’ de você, te assombra e então some, diz que não deveria ter falado aquilo. Dói você amar alguém inconstante. Dói você sentir seu coração ser arrancado do teu peito todas as vezes que pensa nela. Dói você saber que estragou momentos, oportunidades e, até mesmo, a sua própria vida. Dói saber que as mentiras ferem mais do que parecem. Dói você amar alguém que acha bonito que a amem, mas não é capaz de te dar a distância segura pra não te machucar. Dói amar alguém tão infeliz a ponto de te fazer sofrer. Dói amar alguém que não se importa contigo. Dói você se olhar no espelho e ter vergonha de amar aquela garota que tanto te feriu, mas que você não consegue esquecer. Dói amar você.
                Ela calou-se. Pude notar a sua respiração ofegante – assim como a minha –, o seu olhar assustado. Ela, com a voz meio embolada, falou:
                – ‘Fazer mal’ é subjetivo. Como você pode ter tanta certeza de que me ama se eu te faço tanto mal?
                Agora fui eu que me calei. Respirei, olhei no fundo dos olhos dela, segurei o choro e completei:
                – Porque mesmo me fazendo tanto mal, eu ainda amo você. Quando a gente ama alguém de verdade, a gente ama os seus anjos e seus demônios; e eu infelizmente vi essas duas faces tuas.
                – E não custa tentar?
                – Não. Eu tenho medo.
                – Medo? Que medo?
                – De amar você.”


domingo, 6 de dezembro de 2015

A Resposta da Ninfa ao Pastor – Walter Raleigh

Cena do episódio 8 da sétima temporada de The Vampire Diaries!


Recentemente ouvi um trecho dessa poesia em uma das mais belas cenas que existiu em "The Vampire Diaries" e que marcou o desfecho (trágico) de uma personagem que (mesmo sendo cruel) acabei me encantando pela intensidade. É uma poesia do escritor britânico Walter Raleigh!

Se jovem fosse toda a gente e o amor,
E a verdade na boca de cada pastor,
Cada um destes prazeres me levaria
A ir ser teu Amor em tua companhia.

Mas ao redil o Tempo recolhe o rebanho,
Quando o rio brame e esfria o rochedo,
É quando Filomela fica como os mudos
E o resto se lamenta de cuidados futuros.

Murcham as flores, e o viço campestre
Ao indócil Inverno logo se submete:
Uma língua de mel, coração sem amor,
Primavera de desejo, Outono de dor.

Os teus vestidos, sapatos, canteiros de rosas,
Tua boina, saia, flores preciosas,
Breve quebram e murcham – esquecidas são,
A loucura é completa, perde-se a razão.

Teu cinto de palhinhas e rebentos de hera,
Tuas fivelas de coral e botões de âmbar –
Entre todos eles nenhum me levaria
A ser teu Amor em tua companhia

Se se fosse jovem e o amor gerasse sempre,
Alegrias sem data, velhice não carente,
Por estes prazeres, minha alma decidia
Ir ser o teu Amor em tua companhia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Barreira de Sentimentos

Cena do episódio 10 da 5ª temporada da série "Once Upon a Time"


                Por mais que as palavras queiram sair, elas tornaram-se difíceis. Escrevo linhas e apago. Tomo o caderno em minhas mãos e rasgo algumas folhas com poucas coisas escritas. Nunca entendi meus bloqueios criativos. Acho que, por eu nomeá-los assim, nunca reparei que é justamente nesses momentos em que mais quero criar. Ideias e mais ideias, sonhos e mais sonhos; tantas coisas capazes de se tornarem grandes textos e histórias, mas que, por algum infeliz motivo, acabaram ficando presas na minha mente.
                Aos poucos fui analisando – me analisando – e tentando buscar a causa de tal bloqueio. Foi então que, após algum tempo, descobri que não se tratava de um “bloqueio criativo”, mas sim de um bloqueio de mim. Não sei se por medo das boas ideias – pelo fato de tanto me cobrar e considerar necessária a opinião de outras pessoas – ou por medo de elas terem surgido inspiradas em mim.
                Nunca fui bom para falar de mim. Não sei me definir, me elogiar e resumo minhas características da forma mais simples possível. Não falo meus problemas, não exponho meus sentimentos, minhas mágoas; nada. Acho que, por isso, tornei-me um depósito de sentimentos não só meus. Acho que assim eu acabei criando em mim uma barreira de sentimentos. Tornei-me o ombro amigo, o bom ouvido e então, quando mais precisei, todos os ombros se afastaram, todos os ouvidos se fecharam e até mesmo eu fui incapaz de me ajudar. E então disseram que era drama, que era loucura, que era apenas “coisa da minha cabeça”. E no momento em que mais precisava de um abraço – não de alguém para me aconselhar –, eu ouvi inúmeros “Vai passar!”. Não ia passar tão fácil.
                Foi ali, quando vi as últimas páginas serem escritas, quando vi as pessoas me usarem, partirem e me partirem, que eu vi que eu era o culpado pelo meu próprio fim. Os ouvidos abertos, os braços disponíveis, os “nãos” não ditos, os “sims” malditos. Eu havia me permitido ser o coadjuvante da minha própria história.
                Algumas pessoas – na mesma situação que eu – desejariam o poder de voltar no tempo e mudar o que aconteceu. Porém, eu não mudaria nada do que passou. Todos os erros e mágoas e amores e traições fizeram de mim aquilo que eu jamais pensei que eu fosse e o oposto daquilo que eu queria e pensei ter me tornado. Eu não havia me tornando o “eu frio e forte” que pensei; mas acabei sendo melhor do que eu sempre fui: um “eu” com um coração pulsante, em brasa, e capaz de enfrentar qualquer desafio ou desapontamento. Por mais que eu odeie fazer elogios, principalmente para mim, hoje faço questão de me olhar no espelho e dizer em alto e bom som para todos aqueles que quiserem ouvir pela primeira vez em muito tempo: eu me tornei a melhor parte de mim e eu tenho o maior orgulho disso.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Finais Felizes



                Sempre acreditei em finais felizes. Podem me chamar de tolo, idiota ou utilizem o adjetivo que melhor se encaixar, mas acreditei – e muito! Sempre acreditei que, ao final de uma história, mocinhos seriam beneficiados por suas boas ações e teriam seus finais felizes ao lado dos seus amores ou com uma viagem ou com a realização de um sonho. Os vilões seriam castigados, punidos severamente. E assim, ao final de uma bela cena, surgiriam as palavras “The End” ou “Fim” – não importa.
                Aos poucos passei a enxergar a vida com outros olhos. Passei a ser “pessimista”, como minha mãe prefere dizer; mas prefiro utilizar a palavra “realista”. Passei a acreditar e enxergar que não existem finais felizes. As histórias que possuem “finais felizes” foram feitas para serem vendidas com o intuito de iludir ou de dar um simples vestígio de esperança para aqueles que já perderam a fé em tal utopia. Não são reais.
                Não existem finais felizes. Não existem histórias que acabem com finais perfeitos, com vilões humilhados e mocinhos alegres. Não existem finais. Aliás, acho que o único final que exista é a morte.
Somos enganados durante toda a nossa vida com a ideia de um “final feliz”. Porém, o que viria depois daquele final?! O que viria depois do casamento da Branca de Neve com o seu príncipe encantado? O que viria depois de a Chapeuzinho Vermelho se reunir com sua avó? O que virá depois dos momentos em que pensamos ser as pessoas mais felizes da face da Terra?
                Todas as histórias que vemos e ouvimos com tantos “finais felizes” se encerram ali, naquele momento, onde todos os personagens e leitores/ouvintes acreditam que nada mais poderá abalar tal felicidade. Não existem finais felizes. A vida não é doce e alegre como nos filmes. Haverá sempre alguém disposto a nos puxar o tapete, a nos trair, a mentir, a iludir, a ludibriar com algumas doces palavras de amor ou de amizade; e, mesmo assim, quando não houver um alguém que nos faça parar de pensar naquele momento como um “final feliz”, nós mesmos podemos ser capazes de destruir nossa própria felicidade.
                É impossível ser feliz uma vida inteira. É impossível que a vida seja feita somente de alegrias quando, infelizmente, são os momentos tristes que nos impulsionam a querer algo melhor, a desejar a felicidade. O que seria da alegria sem a tristeza? É a simples lei da “oferta e procura”: quanto mais temos algo, menos valor isso terá.
                Felicidade não é palpável, não é comprável e, nem de longe, será eterna. 

domingo, 22 de novembro de 2015

A Carta


Música: Wings - Birdy

                Ultimamente não tenho feito muito sentido. Sinto que meu coração tem se apertado, apertado, apertado e se tornado cada vez mais comprimido. Um coração destinado a ser tão grande e que, por desventuras da vida, tornou-se um gigante reprimido.
                Nunca gostei de falar sobre mim. Aliás, sempre tive certo receio de expor meus sentimentos, minhas palavras, minha arte ou até mesmo a minha voz. Falar era difícil, apresentar qualquer trabalho era uma tarefa árdua. Porém, em alguns momentos eu conseguia demonstrar uma outra parte de mim, uma parte que nem eu mesmo tinha a noção de conhecer, uma parte romântica, forte, intensa, que sabia se expressar, sorrir, gargalhar alto, conversar, mostrar tudo aquilo que quer e deseja. Certa vez me perguntei: como sou capaz de der duas partes tão opostas dentro mim?
                Com o passar dos anos eu aprendi que não havia duas partes opostas. Havia apenas uma parte de mim, uma parte que se completava com vários pedaços – alguns opostos e outros não – que se encaixavam em uma personalidade complexa e ao mesmo tempo que era fácil de ser desvendada. “Decifra-me ou te devoro!”; esse era o desafio da Esfinge de Tebas e acho que acabou tornando-se a frase que usei para me definir. Por fora, uma casca impenetrável, onde poucas pessoas conseguiam chegar ao interior. Aquelas que não conseguiam tocar meu coração, ganhar a minha amizade ou o meu amor; acabavam por ser devoradas, mas pelo esquecimento.
                Sempre fiz questão de amar. Achava que o amor era o que me mantinha vivo, que me impulsionava. Amor era aquilo que eu via em filmes e livros e me deleitava, me imaginando como um príncipe num cavalo branco, ou então como aquele cara atípico numa livraria que se esbarraria com uma belíssima mulher e assim viveria uma das mais belas histórias de amor, uma história de amor eterno que somente a morte seria capaz de findar. Como eu era tolo! Como eu era tolo por acreditar que tais histórias pudessem acontecer. Como eu sou tolo! Como eu sou tolo por acreditar que elas não mais podem acontecer. Como eu sou tolo por perdido a crença no amor.
                Amor não é predestinado, é acaso. Amor não é escolha, é coisa de momento. Amor tornou-se tão banal que hoje só serve para ser vendido: amor de interesse, de livros, de filmes. Amor hoje em dia é coisa rara, quase impossível de se ver. Amor é difícil de sentir, mas sentir nem somente basta. É preciso encontrar alguém que sinta o mesmo por você. Amor é sorte. Amor não é coisa qualquer; amor é a carta que falta para completar uma canastra tão difícil de se completar: a canastra chamada felicidade. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Palavras



                “Eu sinto meu coração acelerar. É como se, mais uma vez, meu corpo se enchesse de virtudes, como se as melhores coisas que existem em mim exalassem espontaneamente, sem pestanejar, num rompante. As tuas palavras me alegram, me fazem delirar, acalentam meu coração e, ao mesmo tempo, são capazes de provocar mais uma das feridas do jeito que só você pode fazer.
                Nunca me imaginei em tal situação. Nunca me imaginei amando alguém tão profundamente e agora, em meio a tantos sentimentos, eu não sei nem mais o que sentir. Amor ou ódio, tristeza ou alegria... Nada. Apenas um eu apático, que de tanto se ferir, deixou de esperar. Um alguém que deixou de esperar pelos amores, passou a esperar as dores, um eu pessimista que só consegue enxergar o pior em todas as pessoas que se aproximam. É um erro. Eu sei. Porém, na maioria das vezes, a melhor forma de enfrentar seus medos, é permitindo que eles entrem em você.
                Eu tenho medo. Eu tenho medo das palavras jogadas ao vento, sem sentimentos, apenas palavras ditas ao acaso. Eu tenho medo das palavras de quem não ama e as joga ao relento sem nenhuma perspectiva do sofrimento que podem causar. Sofrimento sim. Eu tenho medo dos falsos amores, das falsas verdades que nos são ditas, dos ‘Eu te amo!’ tão banalizados, tão mascarados com nenhuma verdade de sentimento. Eu tenho medo das pessoas que mexem conosco, que nos despertam o melhor e depois nos fazem sentir o pior.
                Uma vez disseram me amar. Uma vez me fizeram acreditar em sentimentos e eu o fiz. Acreditei cegamente, amei incondicionalmente e, por fim, sofri de uma forma que jamais pensei. Hoje o meu coração se quebrou, falta nele um pedaço importante que nem eu mesmo sei onde ficou e nem saberia como colocar de volta. Hoje o meu coração não mais sente intensamente, não consegue acreditar em palavras, em gestos; há apenas um coração tomado pela inércia e pela indiferença. Um coração gélido, massacrado, pisado, estraçalhado e que, ao longo dos anos, construiu uma forte carapaça para se proteger da maior doença de todas: o falso-amor.
                Algumas pessoas dirão que é covardia evitar uma paixão, outras dirão que é um ato de bravura, mas eu não concordo com tais definições. Evitar uma paixão é um ato egoísta para o altruísmo de si próprio. Por fim, acho que me tornei aquilo que mais odiava: um homem com o coração vazio. Acredito que as palavras que tanto vociferei para mim anos atrás não fazem mais sentido. Palavras, palavras, palavras... Palavras impensadas que, por mais simples e belas que sejam, podem nos marcar eternamente, mantendo feridas que nem o tempo pode apagar.”

Sobre Dores e Amores

Cena da série "The Flash"


                Desde criança, sempre imaginei que um dia me apaixonaria. Não calculei uma idade provável, a ocasião ou o lugar, mas sabia que algum dia iria acontecer. Sempre pensei no amor como algo sublime, doce, leve, algo que me fizesse levitar sem tirar meus pés do chão, algo que me fizesse viajar sem precisar de uma passagem; algo que me fizesse ter uma felicidade que eu seria incapaz de conter, que transbordaria nas minhas palavras, gestos e pensamentos.
                Aos poucos fui amadurecendo, me apaixonei algumas vezes e cheguei à conclusão de que amar nem sempre nos faz bem. Amar é uma escolha difícil e, infelizmente, poucas pessoas hoje em dia são capazes de optar por essa escolha. Muitas vezes me perguntei se havia uma estupidez em mim por ainda acreditar no amor. Acreditei que eu fosse apenas mais alguém que não aprende com os erros ou um iludido que escolhe amar mesmo sabendo que vai se ferir.
                Quando amamos alguém, vivemos um êxtase inicial, uma sensação de que nada nem ninguém poderá derrubar aquele sentimento. Aos poucos, os obstáculos aparecem e aquele êxtase, aquela felicidade, de outrora vai esmaecendo. Aos poucos percebemos que estar com alguém nos torna não somente felizes, mas nos oferece grandes riscos e grandes escolhas. Foi então que eu descobri a maior certeza sobre o amor que já tive até hoje: quando o nosso coração dói por alguma pessoa e, ainda assim, somos capazes de amá-la; é amor de verdade, pra vida toda.
                Amor não é festa, nem carnaval e nem livro. Amor é realidade, amor é lidar com decepções e mágoas, com a rotina, com gênios difíceis, com personalidades opostas, com adversidades, com o tempo, com a distância, com o que for; e ainda assim continuar a amar. Um amor não é verdadeiro quando nos faz feliz em tempo integral. Um amor só é verdadeiro quando esse amor nos fere e, mesmo assim, o sentimento não deixa de existir. 



domingo, 8 de novembro de 2015

Egoísmo



                Meus pés alcançaram o chão. Agora eles parecem não mais querer voar. Minhas asas foram cortadas, sem a mínima chance de permitir um equilíbrio entre elas. Há apenas o chão. Meu coração encontrou a frieza. Agora ele parece não mais aquecer. Meu calor se foi, sem a mínima chance de me manter aquecido por mais tempo. Meu corpo encontrou a solidão. Agora ele não mais tem o teu. Suas mãos me foram arrancadas, sem a mínima chance de segurá-las por mais tempo.
                Minhas palavras se cansaram. Agora elas parecem livres de sentimentos. Minha sensibilidade para o amor foi adormecida, sem a mínima chance de um pedido para que elas ficassem um pouco mais. Meus gestos tornaram-se incompletos. Agora eles não têm mais o reflexo das tuas respostas. Eles foram mutilados sem a oportunidade de uma súplica, uma súplica para que você não os deixasse morrer.
                Meus textos tornaram-se desmotivados. Agora eles são forçados. Minhas expectativas para com eles foram suprimidas; tornaram-se até inexistentes. Minhas músicas soam repetitivas. Elas já não me despertam mais os sentimentos que eu desejava. Tornaram-se obsoletas, sem sentido. Tornaram-se apenas músicas aleatórias em meio a sentimentos tão justapostos que parecem me sufocar com tamanha confusão. E me sufocam.
                Meus sentimentos... Ah, meus sentimentos! Sempre tão questionados, tão desprezados. Amigos, amores, conhecidos... Tantas mágoas, tantos tapas na cara levados em tão pouco tempo. Tantas descrenças, tantas ilusões, quantas desilusões. Quantas pessoas plantando suas palavras tão rudes em mim. Quantas pessoas procurando nada mais que um amigo para lhes ouvir nas horas em que precisam. Quantos sorrisos arranquei, quantas lágrimas enxuguei, quantos consolos eu dei. E em troca vi as mágoas, as decepções, a frieza, as rudes palavras... Os esquecimentos. Os abandonos. Se eu pudesse descrever a maioria das amizades que tive, eu as julgaria como “estradas de mão única”; em que a única mão que era estendida era a minha. Quantas noites questionei sobre suas mágoas, ouvi, aprendi, aconselhei, ajudei... E em troca? Nada.  Nem um mísero “oi”.
                Um brinde às amizades e aos amores verdadeiros, aqueles que nem o tempo nem a distância são capazes de apagar. Um brinde a todas as amizades oportunistas e egoístas que tanto nos ensinam. Um brinde a todos aqueles que um dia me fizeram chorar. Sem vocês, eu não teria aprendido a lição. Um brinde a todos aqueles que nos pedem horas de conselhos e nos dão em troca um simples “Vai passar!”. Um brinde a tudo que nos cerca, seja à mágoa ou à satisfação, à alegria ou à tristeza, à companhia ou à solidão. Um brinde a mim que tantas vezes guardei minhas lágrimas para enxugar as de outrem. Um brinde a mim que, mesmo sendo tão massacrado, continuo a acreditar no melhor das pessoas. Um brinde a mim e ao egoísmo que eu deveria ser capaz de ter.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Drop In The Ocean



                “– [...] Tipo, isso de correr atrás do que quer. Acho que a gente foi e voltou muitas vezes. Mesmo quando tínhamos certeza do que queríamos, a gente botava dificuldade. Cada hora era um botando uma dificuldade. Se tivéssemos ido atrás do que queríamos de verdade, talvez não teríamos dado tantas voltas, mas isso nunca vamos saber... – Ela falou e eu pude imaginar um sorriso em sua face.
                Provavelmente, se estivéssemos juntos, eu teria segurado a mão dela, eu tiraria aquela mecha do cabelo que insistia em cair na frente do seu rosto, olharia em seus olhos e diria aquilo que eu mais queria dizer:
                – Eu deveria realmente correr atrás do que eu quero, ou melhor, de quem eu quero. Eu deveria correr atrás de você.
                Ela ficaria vermelha, iria tremer, me dar um tapa – provavelmente duvidando de minhas palavras –, mas mesmo assim eu as diria. Eu poderia ouvir inúmeras respostas: do “sim” ao “não”, com lágrimas ou sorrisos. Eu poderia chorar, beijar, abraçar, levar um tapa, o que fosse; mas eu teria tentado. Como eu queria ter tentado ao menos daquela vez...
                Hoje, quando recordo daqueles momentos, sinto raiva de mim. Sinto raiva dos meus medos, das minhas fugas, raiva dos momentos que evitei em passar ao teu lado, dos momentos que não busquei a mais. Sinto raiva de ter te deixado tão longe quando queria te ter tão perto.
                Eu te feri. Você me feriu. Nossos medos e inseguranças nos moldaram ao longo do último ano e só nos afastaram cada vez mais. Você não é mais aquela garota, eu não sou mais aquele garoto. Crescemos, plantamos medos e mágoas, colhemos decepções. E hoje, evitando uma suposta ferida, prefiro te afastar. Prefiro te manter ao meu lado como uma amiga, uma irmã, ou o que você quiser. Eu prefiro te ter ao meu lado nem que seja com um simples “oi” esporádico a cada semana.  E com uma lágrima caindo do meu olho direito, eu apenas prefiro te responder:
                – Sim. Tenho essa certeza. A gente se gostava muito.
                E assim seguimos as nossas vidas: você em busca dos seus sonhos, eu em busca dos meus. E ainda acredito que, no futuro, olharei para trás e me arrependerei de todas as tentativas de boicotar o meu amor – ou nosso amor? –. Porém, no fundo, eu terei a plena certeza de que te amei demais para correr o risco de te perder, nem que fosse vivendo o nosso amor.”

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Carta ao Amor Finito


Meu amor,

                Hoje faz um ano que te vi pela primeira vez. Um ano desde que meus olhos brilharam por você pela primeira vez. Um ano desde que vi aquela foto, sorri e pensei “Por que não?”. Hoje faz um ano desde que li teus textos pela primeira vez. Faz um ano que ouvi “Somewhere Only We Know” e repeti inúmeras vezes durante o dia. Hoje faz um ano que sonhei, que sorri feito um retardado por horas e horas. Um ano desde que deitei na cama e pensei por horas se eu deveria me arriscar, se eu deveria realmente me encantar por você. Eu já estava encantado.
                Hoje faz um ano que a minha paz acabou. Hoje faz um ano desde que deixei meu coração amar perdidamente, se entregar loucamente a uma estúpida paixão. Hoje faz um ano que passei a dormir tarde, acordar cedo, sonhar acordado e suspirar alto. Hoje faz um ano que resolvi abrir o meu coração, que deixei, de uma forma jamais vista, alguém invadi-lo e roubar a minha alma – em tão pouco tempo. Hoje faz um ano que eu sorri. Faz um ano que tremi, gelei, suei frio. Faz um ano que meu coração acelerou, meu pulso disparou, minha respiração ofegou. Era você. É você. Infelizmente ainda é você.
                Eu te amei. Eu te odiei e amei e odiei e amei e repudiei e ignorei e, por fim, como uma puta ironia do destino, amei novamente, feito um idiota. Um ano se passou. Você mudou, eu mudei. Você não é mais aquela garotinha assustada com medo de amar. Eu não sou mais aquele garotinho que, apesar de se dizer corajoso, tinha medo de ser amado. Hoje eu não sou mais aquele garoto. Um ano se passou e eu morri, morri um pouco, mas não faz mal. Dizem que morremos um pouco a cada dia, seja por dentro ou por fora. Hoje faz um ano que uma parte de mim começou a morrer, a melhor parte de mim. Hoje faz um ano que meu coração acelerou ao te ver e, por mais que digam o quão errado estou, creio que te amei no momento em que coloquei meus olhos em você. Eu te amei naquele dia dois de novembro às nove horas da manhã de um domingo.
                Certa vez associei o amor a uma chuva: chega, nos invade com a alegria como o cheiro de terra molhada, então surgem as tempestades e relâmpagos até que, enfim, surja um belo arco-íris. Eu cheguei ao meu arco-íris, mas infelizmente você não está aqui pra ver. E por mais que seja trágico dizer que comecei a te amar no dia de finados – me perdoe! –, mas eu acho que deixei de fazer sentido há muito tempo.
                Hoje faz um ano que te conheci, um ano que minha vida mudou, O ano em que minha vida mudou. E apesar de te odiar em algumas horas, sei que o meu amor é verdadeiro porque ele não foge das mágoas, ele não foge das tristezas, da raiva, de tudo. Eu, logo eu, que tanto quis um amor ideal, vivi o amor mais realista possível. Justo eu que tanto sonhei com uma princesa, encontrei uma mulher que em nada parecia perfeita. Mas você era perfeita... Você é perfeita – pelo menos ao meu olhar. E por mais que digam que seja loucura ainda te amar, eu continuarei a sentir.

“And they say everything it happens for a reason
You can be flawed enough but perfect for a person
Someone who will be there when you start to fall apart,
Guiding your direction when you're riding through the dark”
               

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A música. A desilusão. A foto.



                Uma lembrança se faz presente. Faz um ano que ouvi aquela música... Por coincidência, o calendário foi corajoso ao me lembrar que naquele domingo e nos dois seguintes, três fatos mudaram quem eu era. Três passos de um estágio sem voltas. 
                A música que inspirou, que marcou, que motivou e que foi ouvida diariamente ao longo desses trezentos e sessenta e cinco dias (sim, por extenso para mostrar o quão longo foi esse ano). A música que me fez ser um homem determinado (em boa parte do tempo) e que me acalentou durante várias noites de amargura. A música que me fez querer partir, ficar, amar, odiar, lembrar, esquecer, tentar, compreender, tentar compreender.
                A desilusão. O amor conturbado que quebrou a casca que aqui existiu por mais de dois anos. A desilusão que me fez não acreditar tão facilmente no amor e na sua beleza, que me fez duvidar de amizades e que, acima de tudo, alimentou a frieza do meu coração. A desilusão que me fez desacreditar ainda mais nas pessoas e nas suas palavras de “Eu te amo!”. A desilusão... A doce desilusão. A amizade e o amor; ambos destruídos por um simples beijo.
                A foto. Aquela foto... O sorriso tímido, os textos bem escritos, as músicas inspiradoras. Como eu sonhei, como eu desejei. E por mais que o medo e a insegurança de me apaixonar se fizessem presentes, eu tentei. Tentei, tentei, tentei e voltei atrás. Tentei novamente e, por fim, quando a coragem me tomou por completo, não havia mais tempo para amar. A foto que tantas vezes me fez sorrir e chorar e que, ainda hoje, me causa arrepios. A foto de quem me fez descrer no amor mais uma vez.
                Eu não odeio o amor. Eu odeio os “Eu te amo!”. Os falsos “Eu te amo!”. Eu odeio as pessoas que dizem amar sem certeza e que não buscam a clareza das suas emoções. Tanto aquela música, quanto aquela desilusão e aquela foto foram marcos pra mim, marcos da minha vida, marcas da minha alma. Momentos inesquecíveis que me fizeram crer e descrer. E hoje, com todas as marcas que guardo, eu não voltaria atrás. Eu teria ouvido aquela música, teria me desiludido novamente, teria visto aquela foto e me apaixonado per-di-da-men-te. No fundo, eu não gostava daquele meu eu, um eu frio que não fazia questão de amar. Quanto maiores as nossas desilusões, maiores as nossas mudanças. Para o bem ou para o mal.

Texto de 19/10/2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Tempo


Música: Wish - Hurts

                “O relógio na minha frente parece mentir. Já faz tanto tempo... Tanto tempo... Eu queria poder voltar no tempo, queria poder corrigir meus erros, não ter aceitado os teus. Eu devia ter amado mais... Eu devia ter tentado mais...
                Um ano se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Fui traído por amigos e amores. Fui jogado aos leões e sobrevivi. Enfrentei tempestades, vendavais e infernos; mas nenhum deles foi capaz de me desorientar tanto quanto você. Eu mudei. Acho que me tornei um remendo de sentimentos, um boneco quebrado que foi posto à venda no fundo de uma prateleira escondida. Um velho boneco de sentimentos que insiste em olhar para o relógio e lembrar de momentos que mereciam ser esquecidos.
                Uma década se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Fiz novos amigos, perdi tantos outros. Tive vários amores e hoje casei. Tenho uma esposa, filhos a caminho... Tudo parece ter se encaminhado aos poucos e eu não mais tenho notícias de você. Eu não tenho mais notícias do meu primeiro amor. O velho boneco, eu, foi comprado, restaurado e ganhou vida. Ele seguiu seus sonhos, enfrentou guerras e demônios internos. Se reergueu e caiu tantas vezes que os dedos das mãos são incapazes de contar. O relógio tornou-se esquecido. O tempo passou tão rápido e ele nem se deu conta.
                Uma vida se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Vi meus amigos morrerem, vi a mulher que tanto amei partir. Vi meus filhos casarem, tive netos, tive novas lembranças. Minha vida seguiu seu rumo perfeitamente, o rumo natural das coisas: nascer, viver, morrer. Hoje, à beira da morte, não vejo a esperança que me rondou durante os anos após te conhecer. Olho para a minha frente e vejo um relógio. Em meio aos sons quase inaudíveis das batidas do meu coração, sinto um pulsar forte em mim. As lembranças se fazem presentes, você me vem à mente; vejo novamente a tua foto (aquela foto), o teu sorriso visto do alto da escada onde eu me encontrava, do abraço que te dei em meio ao meu suor. Minhas mãos quase frias da morte lembram dos teus dedos se encaixando perfeitamente nos vazios entre os meus. Tudo na minha mente.
                Uma vida se passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Porém, no fundo de mim, onde a luz nunca mais ousou encostar, eu sabia que existia algo: aquele velho eu, aquele velho garoto repleto de medo, repleto de amor e de inseguranças que um dia ousou te amar. Havia dentro de mim ainda aquele amor. E enquanto ouço e sinto meu coração desacelerar, eu sinto a tua mão tocar na minha, ouço a tua voz. Encontro a paz.
                Apenas um ano passou. Tantas coisas mudaram... Eu mudei. Porém, dentro de mim, há algo pulsante; algo abafado. Algo que precisa ser sufocado. Um amor, uma dor, um temor. O relógio não mente. O tempo passou e eu sei que ainda te amo, mesmo que contra a minha maior vontade: a de te esquecer.”

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Pra Nunca Esquecer – Epílogo



                Eu acho que chegou a hora de dizer adeus. Adeus não somente a quem eu era, mas ao que eu fui, ao que me tornei e ao que eu poderia me tornar. Eu acho que chegou a hora de dizer adeus aos pequenos momentos, às doces lembranças e, até mesmo, ao meu maior pesadelo: você. Acho que chegou a hora de dizer adeus aos choros intermináveis, aos pesos insuportáveis e à firmeza inabalável. Chegou a hora de dizer adeus a tudo aquilo que existiu.
                Pra nunca esquecer, permiti me perder, permiti que o meu coração fosse o mais louco dentre todos com uma batida única e forte. Pra nunca esquecer... Pra nunca esquecer das nossas músicas, das nossas lembranças, das nossas mágoas, dos meus choros. Pra nunca esquecer o nosso amor.
                Desde criança, eu sempre quis lembrar. Aliás, desde sempre, meu maior medo foi justamente esquecer. E agora, me vejo preso em um final, escrevendo um epílogo, um triste epílogo onde não há finais felizes – se é que há um final!
                Pra nunca esquecer, eu tentei lembrar, tentei não dizer adeus, tentei guardar as boas lembranças e adormecer as terríveis mágoas. Não adiantou. Cheguei a um ponto em que descobri que, para me reencontrar comigo, eu preciso esquecer. Esquecer as boas e más lembranças, criar novas memórias. Apagar o passado, corrigir o presente e buscar um futuro.
                Chegou a hora de escrever o ponto final. Não tenho mais palavras nem espaço. Esse é o meu epílogo, o fim dessa história; uma história de amor com dor, comédia, drama, tragédia, risos e tudo mais que eu poderia sonhar. Uma história prolongada e vivida com apenas um intuito: pra nunca esquecer o quanto eu amei você. 

sábado, 10 de outubro de 2015

O Quarto



                “Eu poderia fechar as janelas, mas a música me parecia tão condizente ao momento. Por mais que as paredes fossem velhas, que o chão estivesse sujo e que eu estivesse em meio a lágrimas com uma garrafa de vodka em uma de minhas mãos, eu poderia dizer que havia beleza naquele momento. Tantas pessoas falam que homens não choram, mas estão enganadas. Homens choram.
                É como se fosse o fim de uma história. É como se todos os meus sonhos tivessem chegado ao fim e eu estivesse preso ali, mas com as janelas e portas destrancadas me esperando para sair daquele fétido lugar. Eu poderia sair, eu deveria sair; mas eu não conseguia. Após tantos tempo, após tantas feridas terem ficado em aberto, eu me vi perdido, sem esperança, com o coração vazio.
                As circunstâncias que haviam me levado até ali foram as mais banais: traições, mentiras, joguinhos... Enfim, coisas que todos dizem “vai passar”. Não... Não vai passar tão fácil quando você só estiver acostumado a elas, quando você passar anos e mais anos apenas com essas visões da vida, quando todas as coisas boas tornam-se mínimas perante às desgraças que acontecem.
                Não havia tempo para cicatrizar feridas. Elas insistiam em ser criadas nos mesmos lugares. No coração, no corpo, na alma. Eu havia me tornado um boneco quebrado, um marionete de tantas mentiras, um alguém que havia perdido a esperança e que, agora, com a liberdade batendo à porta, poderia sair. A escuridão havia tomado conta do meu quarto e por mais que as janelas e portas abertas o iluminassem, elas não seriam capazes de iluminar a pior de todas as escuridões: a que estava dentro de mim.
                Por trás de todas aquelas bebidas, cigarros e drogas; eu sabia que, no fundo, eu estava morto. Eu havia sido morto aos poucos pelos meus amigos, pelas minhas amantes – meus amores–, todos aqueles em que eu havia confiado. Era tarde, era tão tarde que as coisas boas tornaram-se ínfimas perante à vida com a qual eu havia sido apresentado. Não havia mais coração para ser preenchido ou resgatado. Não existiam palavras que fossem capazes de me fazer sorrir. Havia apenas o homem sentado numa poltrona com uma velha garrafa de vodka na mão direita e um cigarro quase terminado na mão esquerda.
                Havia beleza naquele momento. Havia beleza nas minhas lágrimas. Acho que havia um pouco de esperança bem lá no fundo. Uma esperança de que tudo se resolveria, de que todas as verdades seriam expostas. Havia a esperança de que eu, somente eu, fosse capaz de sair daquele quarto. O caminho até a porta estava livre e só cabia a mim escolher como ir até lá: rastejar, caminhar ou correr.”

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Amar o Amor


Música; Wave - Tom Jobim 

                Há uma linha tênue entre o amor e a dor. Há um espaço vazio entre as paredes do meu coração. Acho que passamos a nossa vida toda na expectativa de encontrar alguém, de nos preencher, de conhecer alguém que nos faça suspirar. Um alguém que nos “complete”. Em todas as minhas experiências aprendi que, mesmo com as diferenças, não há complementação. Não há um sentido bom em ser “completado”. Na física do amor, opostos não se atraem, tendem a se repelir. Ok. Temos nossas exceções... Mas, no fundo, a verdade é que quando há o amor, não existe diferenças. Não existe aquela mínima coisa que nos faça repelir esse alguém.
                Há um erro na lógica da vida. A partir do momento que pensamos precisar de alguém para sermos felizes, depositamos todas as nossas fichas nessa esperança, nessa vil esperança de que alguém (além de nós mesmos) será capaz de fazer aquilo que sequer conseguimos. Antes de encontrar alguém, precisamos nos encontrar. Antes de amar alguém, precisamos nos amar. São os requisitos do amor. E me desculpem, mas Tom Jobim estava errado: não é impossível ser feliz sozinho. É sozinho que somos felizes o suficiente para encontrar alguém com quem compartilhar essa felicidade.
                Há um erro na tenuidade do amor. Amor não é uma parede fina que construímos, é uma parede grossa, espessa, trabalhada e reforçada com todos os itens necessários. Amor é aquilo que podemos sentir em uma hora, um dia, ou no tempo que acharmos que é. Se acharmos que é amor, que seja. Se não for, paciência. Há beleza em se dizer amante, em querer amar, em dizer amar, em viver amor. Amar e amar cada vez mais. Acho que é isso que nos impulsiona na vida: o amor, seja por alguém ou por si mesmo. 

sábado, 3 de outubro de 2015

A Graça do Amor



                As portas se fecharam. As palavras não conseguem mais sair. Eu poderia inventar dialetos, modificar palavras, pintar quadros, compor músicas; mas eles seriam incapazes de expressar os meus sentimentos. A escuridão parece inevitável e, aos poucos, pareço voltar àquele “eu” de outrora, um eu invernal, frio, calado e sem perspectivas nem anseios de aquecer o coração. Coração... Sempre tão estúpido e idiota... Coração... Órgão tão essencial...
                Não consigo compreender o amor. Eu até que tentei (juro!), mas não consegui. Sentimentozinho complicado, confuso e aterrorizante. Não “podemos” nos apaixonar por quem se parece conosco, afinal seria um romance sem desafios. Não “podemos” nos apaixonar por quem nos é tão diferente, afinal seria um romance sem futuro. Não “podemos” sequer nos apaixonar rapidamente, afinal somos loucos de viver tamanha intensidade. Não “podemos” ter paciência no amor, afinal o coração é feito para sentir as dores e os amores onde e quando eles vierem.
                Acho que, no fundo, mas no fundo mesmo, eu errei. Errei em tanto tentar compreender o amor, em tanto encontrar explicações racionais para os meus sentimentos. Errei em ter tamanha exatidão, em tentar explicar com exatas aquilo que nem de humanas é. “Coração não é tão simples quanto pensa”! Acredito que o amor tenha sido “feito” para ser sentido. É... Eu acho que senti o amor. Eu não fui racional de um todo, eu me deixei inundar pelo amor, deixei meu coração à deriva, desancorado. E não tenho culpa se as âncoras nele jogadas não foram fortes o suficiente para fazê-lo querer ficar.
                No fundo, eu acho que graça do amor é essa: se jogar, ser abestalhado, rir das mesmas idiotices por mais infantis que elas sejam. É querer estar perto, querer abraçar, beijar, apertar, sentir o cheiro, fazer carinho, alisar o cabelo um do outro e no fim não se cansar disso tudo e querer sempre mais. A graça do amor é a cumplicidade, a amizade, o próprio amor, a paixão, o tesão. Tudo. Amor não é soma nem diferença, não é cabível de interpretação, não é obrigado a ter explicações. Amor pode ser tudo ou nada, pode ser sobre viver ou morrer, sobre ganhar ou perder, sobre amar ou morrer...
                Amar não é fácil. Encontrar o amor é difícil. O amor é capaz de adoçar a vida, mas também é capaz de fermentar a morte. Afinal, de que adianta encontrarmos o amor se, ao fim de tudo, iremos morrer? Pessimista, eu sei, mas real. Acho que agora entendi a graça de viver um amor. Talvez ele sirva para aquecer o coração, fazê-lo bater mais forte, com intensidade, para que, no dia da nossa morte, ela possa doer de verdade. Um coração que nunca amou (me perdoem) só pode estar morto. E qual a graça de fazer parar um coração que nunca bateu?   

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Caminho



                Para muitos o entardecer é uma mensagem anunciando o fim do dia. Tento enxergar diferente. Afinal, não seria o começo da noite? Entre prédios e placas, eu me questiono: para onde estou indo?
                Até então eu não sabia, mas estava perdido. Estava envolto em um emaranhado de sentimentos e conflitos internos. Eu não sabia qual placa seguir, qual parada obrigatória respeitar ou, até mesmo, qual sinal eu deveria invadir.
                Por meses eu estive imerso em lágrimas, medo e inseguranças; e foi ali que eu percebi o quão arriscado pode ser amar. Não! Hoje não quero falar deste sentimento insano e doente que nos torna “dependentes” da presença, do amor ou da indiferença de alguém.
                O anoitecer não é a perda da beleza do dia, é a oportunidade de enxergar um novo mundo onde as luzes da cidade irão brilhar e se mesclar com a beleza das estrelas e da lua.
                Tanto no amor quanto na vida, a ideia de recomeçar assusta e tende a nos sufocar. O “novo” é um mar obscuro onde os mais corajosos se ousam a navegar. Ainda não sei para onde vou, mas quero, com toda certeza, ser feliz.

sábado, 26 de setembro de 2015

Questionamentos Sobre o Amor



                Que tipo de amor é esse? Que tipo de amor é esse que machuca, humilha, espanca, destrói? Que tipo de amor é esse que deseja ver o outro humilhado? Que tipo de amor é esse que torce contra você, contra teus sonhos? Que tipo de amor é esse que, em vez de se resguardar, torna-se superficial?
                Que tipo de gente é essa? Que tipo de gente é essa que diz que ama e magoa? Que tipo de gente é essa que diz que ama, mas, na primeira oportunidade, trai? Que tipo de gente é essa que diz que ama e é incapaz de não amar os próprios pais? Que tipo de gente é essa que diz que ama e faz questão de te diminuir, te menosprezar? Que tipo de gente é essa que diz que ama e te faz acreditar ser a pior das pessoas? Que tipo de gente é essa que diz que ama e faz questão de olhar para um novo alguém enquanto está ao seu lado?
                Que tipo de amor egoísta é esse? Que tipo de gente é essa que diz que ama e é egoísta?
                Existem pessoas que não sabem amar. Amor não é somente construído. Amor pode ser encontrado num simples encontro na rua, num simples olhar cruzado dentro do ônibus ou, até mesmo, pela televisão. Amor pode nascer com um simples “Oi!” ou um abraço. Amor pode existir há anos e, somente naquele momento, ser descoberto como amor. Amor não machuca, não fere, e, quando passa a te ferir, deixou de ser amor. É doença.
                Amor é sobre felicidade, sobre confiança, carinho, afeto, tesão, paixão, tudo. Não importa o tempo. Amor pode surgir em 10 minutos, em 10 anos, em 10 vidas... Vai ser amor enquanto te fizer feliz, enquanto houver todos os “requisitos” para felicidade a dois. E que sejamos todos felizes, sem medos, conceitos, preconceitos e, o mais importante: com coragem! 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sobre Finais Felizes



                Os carros passam com suas buzinas exageradas. As pessoas, apressadas, correm sem nem olhar para o lado. É tarde. Noite de Natal e é tarde. E eu ali, a única pessoa em um restaurante meio vintage. Provavelmente os funcionários cuspirão em meus pratos e minhas bebidas, mas eu não me incomodo. Não mais.
                É engraçado como as pessoas correm para suas casas nessas noites. Há esperança nelas. Há uma esperança de que, naquela noite, tudo seja perfeito. Seus maridos, esposas, filhos, avós, netos, pais, irmãos; todos eles serão as melhores pessoas do mundo. Todos colocarão sorrisos estampados na face e gritarão mensagens de paz, amor, felicidade, realizações e blá blá blá. No dia seguinte, todos vestirão suas roupas comuns, tirarão suas máscaras e mostrarão suas verdadeiras faces repletas de arrogância, egoísmo e superficialidade.
                Cá estou eu, na noite de Natal, sozinho em um restaurante qualquer apenas observando as pessoas que passam. Meu vinho faz morada naquela taça há cerca de vinte minutos. Eu estou sozinho. Na realidade, eu estou sozinho há um bom tempo. Essa parece uma das cenas que tanto imaginei para a minha vida: eu, um mero coadjuvante da minha própria história, sozinho, na cena final, apenas esperando os créditos aparecerem para que eu possa deixar de existir, para que toda a minha existência tenha sido em vão e que, no fim, todos se lembrem apenas dos protagonistas. Eu não sou o protagonista.
                Esse é o meu “final feliz”. Um “final feliz” encontrado por um autor meia-boca qualquer que, insistentemente, quis dar um final a um personagem que apenas serviu de impulso e de clímax para os protagonistas que, a essa hora, estarão curtindo um beijo debaixo da chuva (não está chovendo aqui, mas lá estará), ou quem sabe estarão fazendo sexo no banheiro de um avião, chegando a um destino exótico, tendo aquelas belíssimas cenas de finais de filmes. E eu aqui... Em um restaurante qualquer, sozinho, com uma taça de vinho e uma lágrima relutante em cair, afinal, dizem que homem não chora, mas nesses filmes temos de colocar um homem sofrendo para mostrar que nós somos passíveis à dor do amor. Para minha sorte, o autor vai colocar uma bela e excitante mulher para entrar a qualquer minuto pela porta – especificamente na minha frente – e ela virá em câmera lenta e sorriremos um para o outro, dando a entender que eu, o coadjuvante bundão e idiota, tive um final feliz.
                Puta merda! Como podemos acreditar nesses finais? Eu não terei o meu final feliz. Não aparecerá ninguém por aquela porta. Seremos eu, os funcionários e as pessoas que passarão. Eu provavelmente irei chorar copiosamente, irei sair do restaurante e seguir pelas ruas com a postura firme até chegar em casa, onde chorarei mais e mais, por dias e dias, beberei todas as minhas bebidas... Até que, quando eu ver que estou no fundo do poço, irei levantar, fazer a barba, me olhar no espelho, colocar uma roupa melhor e sair para trabalhar. Os livros e filmes não contarão isso, mas esse será o meu “final feliz”. Um final que nunca será imaginado, nunca será escrito. E eu serei lembrado apenas como aquele que esteve ao lado da mocinha e que foi altruísta o suficiente para deixá-la ir ou como aquele cara que foi largado por uma protagonista babaca, sem caráter e egoísta, que apenas me iludiu durante uma parte do filme.
                Não sei. Acho que seja a hora d’eu pegar a caneta e mudar os rumos da história. Escrever um novo final, um final diferente, divertido e ousado.
                Um final para mim.
                O meu final feliz. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Esperança



                - Então é isso, meu bem. Chegou ao fim... – Ele olhou sua esposa ali, inerte, morta, sem reação alguma além de um sorriso bobo no rosto.
                A morte o surpreendera, aliás, os surpreendera. Em menos de uma semana, Isabella passou de uma mulher extraordinariamente comum a um cadáver. Para ele, ela continuaria a ser, para sempre, aquela mulher por quem ele se apaixonara naquele dia de inverno, onde uma chuva os deixara ilhados em um pequeno mercado. Ele a ajudou, ela sorriu; ele conversou, ela respondeu; ele lhe deu o número de seu telefone, ela o ligou; ele a chamou pra sair, ela aceitou; ele sorriu, ela o beijou; ele a amou, ela o correspondeu; ele a pediu em casamento e ela aceitou. Seis anos foram suficientes para uma das mais belas histórias de amor que ambos jamais poderiam imaginar. Uma história repleta de acasos, amor e deliciosos momentos a dois.
                A morte os surpreendera tanto quanto a vida. A vida a dois que eles jamais imaginaram, os sorrisos que eles jamais pensaram em dar, os beijos que eles jamais esperaram, as brigas que eles jamais quiseram, os sonhos que jamais sonharam. Agora, tudo se resumia a ele, em frente ao um caixão, e ela ali, serena, inerte, pálida, mas com aquele mesmo sorriso estampado na gélida face, o mesmo sorriso de quando se conheceram, com as roupas molhadas, com o desespero estampado na face. Agora, o desespero era outro e ele se sentia da mesma forma que antes: sem rumo. Da outra vez, ele não sabia se seria levado por uma correnteza, agora ele tinha a certeza de que fora levado pela pior e mais devastadora de todas as correntezas: a morte, a morte que levara a mulher de sua vida, o seu grande amor.
                A morte os surpreendera tanto que o fez enxergar que aquela era uma vida boa, que, com todas aquelas brigas comuns, ele era feliz. Agora era tarde. Agora não havia mais saída, não havia mais um portão para se segurar e escapar da correnteza. Agora, o seu portão, o seu alicerce havia partido. Agora, a sua chance era encontrar um portão dentro de si, um lugar seguro e onde pudesse hoje, amanhã e sempre, encontrar a força necessária para sobreviver.
                – Chegou ao fim... – Ele tocou naquela mesma mão de antes e chorou, chorou como quem nunca tivera chorado. Era um choro repleto de dor e paixão, um choro jamais sentido por ele. Porém, no fundo ele sabia que a vida ainda o surpreenderia, não necessariamente com um amor, mas com boas novas lembranças. Havia esperança nele, havia uma doce esperança que, mesmo oprimida, esperava apenas o momento ideal para se manifestar. Esperança. A esperança que todos nós precisamos. A que todos nós queremos.