Páginas

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre Corações Partidos



“Meu coração parece ter se tornado um bloco de gelo. Talvez por ocasião do momento, devido às circunstâncias, ou pelo simples medo de que tudo aconteça novamente. É uma lei de sobrevivência que aprendemos ainda na infância: quando nos machucamos com algo, vamos pensar duas, três, cem vezes antes de repetir aquela mesma ação. É assim com o amor (ou relacionamentos em geral). Algumas pessoas podem dizer se tratar de uma covardia desmedida, mas acho que seja uma precaução, uma forma de proteger a si mesmo dos erros dos outros.
 Certa vez, eu me apaixonei. Ela parecia a garota ideal e ela era – ao menos na minha visão, naquele momento. Ouvi uma vez que amamos uma pessoa não pelas suas qualidades, mas ‘quando conhecemos as qualidades e os defeitos da outra pessoa e, ainda assim, continuamos a gostar dela’. Foi aí, quando lembrei dessa frase, após algumas mágoas, que eu percebi que a amava. Para muitas pessoas, amar alguém que nos magoa – ou nos magoou – trata-se de um masoquismo sem fim, mas não é. Ela não era a ‘garota ideal’ e está longe de ser.
Ao longo da minha vida, ouvi histórias de amor das mais diversas. Seja em desabafos ou pela minha mais humilde curiosidade – tenho um certo ‘fanatismo’ em ouvir histórias de amor alheias – e me espantei com a quantidade de pessoas que sofreram por amor. Do ponto de vista ‘moderno’, seria fácil dizer que tais pessoas são ‘trouxas’ e/ou idiotas. Porém, é errado pensar dessa forma. Amar é um gesto de coragem, mesmo quando não somos retribuídos, quando somos traídos ou, até mesmo, quando amamos alguém que não mereça o nosso amor. Amar alguém é ser altruísta, é ter a coragem de colocar a felicidade dessa pessoa junto a nossa, mas infelizmente nem todas as pessoas sabem o que é isso.
Acho que é seguro dizer que eu perdi a minha sensibilidade. As palavras se formam sem os seus conectivos, as lembranças atormentam de uma forma jamais vista. Creio que a única parte sensível que restou tenha sido a amargura que me atormenta todas as noites quando vou dormir. Aquela velha amargura, misturada com uma dose de rancor, outra de saudade, e uma overdose de tristeza. O que me resta de sensibilidade sai em lágrimas, lágrimas que ferem e sangram mesmo sendo tão escassas. Talvez esse seja o castigo de amar em um mundo onde quase todas as pessoas são egoístas.”

sábado, 5 de março de 2016

Egoísmo II

Cena do episódio 2X01 da série "How To Get Away With Murder"


                Um bom tempo se passou desde que nos vimos pela última vez. Não tenho calculado mais o tempo, não tenho pensado acerca do que fomos, do que poderíamos ser e, muito menos, do que nos tornamos. Quanto a você, tudo tornou-se uma incógnita de uma das mais difíceis equações que já tentei resolver – daquelas que você desiste após algum tempo e sai com uma enorme dor de cabeça.
                Eu não sou mais o mesmo. Resolvi deixar que as feridas se abrissem em mim e sangrassem todas de uma vez. Talvez seja uma forma masoquista de me acostumar com a dor e, quem sabe, permitir que, mais ou mais tarde, ela deixe de existir. Talvez a dor não deixe de existir. Talvez eu continue a sentir o meu coração sangrar todas as vezes que eu olhar as fotos, as velhas mensagens e/ou qualquer outra coisa que me remeta a você.
           Algumas pessoas dizem que enlouqueci. Outras dizem que eu me tornei alguém irreconhecível, uma parte de mim que eu jamais cogitei que pudesse existir. Justo eu, que tanto me vangloriei da minha sensibilidade, pareço ter perdido ela. Talvez seja temporário. Talvez seja apenas uma carapaça para proteger um interior tão machucado que só é capaz de se curar se for protegido de todas as formas possíveis.  
                Certa vez me disseram que o amor é capaz de nos mudar por completo, de abrir novos horizontes, de nos apontar novos rumos e de nos permitir atingir uma forma única e particular de felicidade. Talvez eu tenha deixado o amor me mudar de uma forma negativa. Talvez não seja a regra, mas a exceção: a de que amar alguém egoísta é virar uma arma tão poderosa quanto o amor em nossa direção e atirar. É se permitir sangrar mesmo que sem querer.