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domingo, 22 de novembro de 2015

A Carta


Música: Wings - Birdy

                Ultimamente não tenho feito muito sentido. Sinto que meu coração tem se apertado, apertado, apertado e se tornado cada vez mais comprimido. Um coração destinado a ser tão grande e que, por desventuras da vida, tornou-se um gigante reprimido.
                Nunca gostei de falar sobre mim. Aliás, sempre tive certo receio de expor meus sentimentos, minhas palavras, minha arte ou até mesmo a minha voz. Falar era difícil, apresentar qualquer trabalho era uma tarefa árdua. Porém, em alguns momentos eu conseguia demonstrar uma outra parte de mim, uma parte que nem eu mesmo tinha a noção de conhecer, uma parte romântica, forte, intensa, que sabia se expressar, sorrir, gargalhar alto, conversar, mostrar tudo aquilo que quer e deseja. Certa vez me perguntei: como sou capaz de der duas partes tão opostas dentro mim?
                Com o passar dos anos eu aprendi que não havia duas partes opostas. Havia apenas uma parte de mim, uma parte que se completava com vários pedaços – alguns opostos e outros não – que se encaixavam em uma personalidade complexa e ao mesmo tempo que era fácil de ser desvendada. “Decifra-me ou te devoro!”; esse era o desafio da Esfinge de Tebas e acho que acabou tornando-se a frase que usei para me definir. Por fora, uma casca impenetrável, onde poucas pessoas conseguiam chegar ao interior. Aquelas que não conseguiam tocar meu coração, ganhar a minha amizade ou o meu amor; acabavam por ser devoradas, mas pelo esquecimento.
                Sempre fiz questão de amar. Achava que o amor era o que me mantinha vivo, que me impulsionava. Amor era aquilo que eu via em filmes e livros e me deleitava, me imaginando como um príncipe num cavalo branco, ou então como aquele cara atípico numa livraria que se esbarraria com uma belíssima mulher e assim viveria uma das mais belas histórias de amor, uma história de amor eterno que somente a morte seria capaz de findar. Como eu era tolo! Como eu era tolo por acreditar que tais histórias pudessem acontecer. Como eu sou tolo! Como eu sou tolo por acreditar que elas não mais podem acontecer. Como eu sou tolo por perdido a crença no amor.
                Amor não é predestinado, é acaso. Amor não é escolha, é coisa de momento. Amor tornou-se tão banal que hoje só serve para ser vendido: amor de interesse, de livros, de filmes. Amor hoje em dia é coisa rara, quase impossível de se ver. Amor é difícil de sentir, mas sentir nem somente basta. É preciso encontrar alguém que sinta o mesmo por você. Amor é sorte. Amor não é coisa qualquer; amor é a carta que falta para completar uma canastra tão difícil de se completar: a canastra chamada felicidade. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Palavras



                “Eu sinto meu coração acelerar. É como se, mais uma vez, meu corpo se enchesse de virtudes, como se as melhores coisas que existem em mim exalassem espontaneamente, sem pestanejar, num rompante. As tuas palavras me alegram, me fazem delirar, acalentam meu coração e, ao mesmo tempo, são capazes de provocar mais uma das feridas do jeito que só você pode fazer.
                Nunca me imaginei em tal situação. Nunca me imaginei amando alguém tão profundamente e agora, em meio a tantos sentimentos, eu não sei nem mais o que sentir. Amor ou ódio, tristeza ou alegria... Nada. Apenas um eu apático, que de tanto se ferir, deixou de esperar. Um alguém que deixou de esperar pelos amores, passou a esperar as dores, um eu pessimista que só consegue enxergar o pior em todas as pessoas que se aproximam. É um erro. Eu sei. Porém, na maioria das vezes, a melhor forma de enfrentar seus medos, é permitindo que eles entrem em você.
                Eu tenho medo. Eu tenho medo das palavras jogadas ao vento, sem sentimentos, apenas palavras ditas ao acaso. Eu tenho medo das palavras de quem não ama e as joga ao relento sem nenhuma perspectiva do sofrimento que podem causar. Sofrimento sim. Eu tenho medo dos falsos amores, das falsas verdades que nos são ditas, dos ‘Eu te amo!’ tão banalizados, tão mascarados com nenhuma verdade de sentimento. Eu tenho medo das pessoas que mexem conosco, que nos despertam o melhor e depois nos fazem sentir o pior.
                Uma vez disseram me amar. Uma vez me fizeram acreditar em sentimentos e eu o fiz. Acreditei cegamente, amei incondicionalmente e, por fim, sofri de uma forma que jamais pensei. Hoje o meu coração se quebrou, falta nele um pedaço importante que nem eu mesmo sei onde ficou e nem saberia como colocar de volta. Hoje o meu coração não mais sente intensamente, não consegue acreditar em palavras, em gestos; há apenas um coração tomado pela inércia e pela indiferença. Um coração gélido, massacrado, pisado, estraçalhado e que, ao longo dos anos, construiu uma forte carapaça para se proteger da maior doença de todas: o falso-amor.
                Algumas pessoas dirão que é covardia evitar uma paixão, outras dirão que é um ato de bravura, mas eu não concordo com tais definições. Evitar uma paixão é um ato egoísta para o altruísmo de si próprio. Por fim, acho que me tornei aquilo que mais odiava: um homem com o coração vazio. Acredito que as palavras que tanto vociferei para mim anos atrás não fazem mais sentido. Palavras, palavras, palavras... Palavras impensadas que, por mais simples e belas que sejam, podem nos marcar eternamente, mantendo feridas que nem o tempo pode apagar.”

Sobre Dores e Amores

Cena da série "The Flash"


                Desde criança, sempre imaginei que um dia me apaixonaria. Não calculei uma idade provável, a ocasião ou o lugar, mas sabia que algum dia iria acontecer. Sempre pensei no amor como algo sublime, doce, leve, algo que me fizesse levitar sem tirar meus pés do chão, algo que me fizesse viajar sem precisar de uma passagem; algo que me fizesse ter uma felicidade que eu seria incapaz de conter, que transbordaria nas minhas palavras, gestos e pensamentos.
                Aos poucos fui amadurecendo, me apaixonei algumas vezes e cheguei à conclusão de que amar nem sempre nos faz bem. Amar é uma escolha difícil e, infelizmente, poucas pessoas hoje em dia são capazes de optar por essa escolha. Muitas vezes me perguntei se havia uma estupidez em mim por ainda acreditar no amor. Acreditei que eu fosse apenas mais alguém que não aprende com os erros ou um iludido que escolhe amar mesmo sabendo que vai se ferir.
                Quando amamos alguém, vivemos um êxtase inicial, uma sensação de que nada nem ninguém poderá derrubar aquele sentimento. Aos poucos, os obstáculos aparecem e aquele êxtase, aquela felicidade, de outrora vai esmaecendo. Aos poucos percebemos que estar com alguém nos torna não somente felizes, mas nos oferece grandes riscos e grandes escolhas. Foi então que eu descobri a maior certeza sobre o amor que já tive até hoje: quando o nosso coração dói por alguma pessoa e, ainda assim, somos capazes de amá-la; é amor de verdade, pra vida toda.
                Amor não é festa, nem carnaval e nem livro. Amor é realidade, amor é lidar com decepções e mágoas, com a rotina, com gênios difíceis, com personalidades opostas, com adversidades, com o tempo, com a distância, com o que for; e ainda assim continuar a amar. Um amor não é verdadeiro quando nos faz feliz em tempo integral. Um amor só é verdadeiro quando esse amor nos fere e, mesmo assim, o sentimento não deixa de existir. 



domingo, 8 de novembro de 2015

Egoísmo



                Meus pés alcançaram o chão. Agora eles parecem não mais querer voar. Minhas asas foram cortadas, sem a mínima chance de permitir um equilíbrio entre elas. Há apenas o chão. Meu coração encontrou a frieza. Agora ele parece não mais aquecer. Meu calor se foi, sem a mínima chance de me manter aquecido por mais tempo. Meu corpo encontrou a solidão. Agora ele não mais tem o teu. Suas mãos me foram arrancadas, sem a mínima chance de segurá-las por mais tempo.
                Minhas palavras se cansaram. Agora elas parecem livres de sentimentos. Minha sensibilidade para o amor foi adormecida, sem a mínima chance de um pedido para que elas ficassem um pouco mais. Meus gestos tornaram-se incompletos. Agora eles não têm mais o reflexo das tuas respostas. Eles foram mutilados sem a oportunidade de uma súplica, uma súplica para que você não os deixasse morrer.
                Meus textos tornaram-se desmotivados. Agora eles são forçados. Minhas expectativas para com eles foram suprimidas; tornaram-se até inexistentes. Minhas músicas soam repetitivas. Elas já não me despertam mais os sentimentos que eu desejava. Tornaram-se obsoletas, sem sentido. Tornaram-se apenas músicas aleatórias em meio a sentimentos tão justapostos que parecem me sufocar com tamanha confusão. E me sufocam.
                Meus sentimentos... Ah, meus sentimentos! Sempre tão questionados, tão desprezados. Amigos, amores, conhecidos... Tantas mágoas, tantos tapas na cara levados em tão pouco tempo. Tantas descrenças, tantas ilusões, quantas desilusões. Quantas pessoas plantando suas palavras tão rudes em mim. Quantas pessoas procurando nada mais que um amigo para lhes ouvir nas horas em que precisam. Quantos sorrisos arranquei, quantas lágrimas enxuguei, quantos consolos eu dei. E em troca vi as mágoas, as decepções, a frieza, as rudes palavras... Os esquecimentos. Os abandonos. Se eu pudesse descrever a maioria das amizades que tive, eu as julgaria como “estradas de mão única”; em que a única mão que era estendida era a minha. Quantas noites questionei sobre suas mágoas, ouvi, aprendi, aconselhei, ajudei... E em troca? Nada.  Nem um mísero “oi”.
                Um brinde às amizades e aos amores verdadeiros, aqueles que nem o tempo nem a distância são capazes de apagar. Um brinde a todas as amizades oportunistas e egoístas que tanto nos ensinam. Um brinde a todos aqueles que um dia me fizeram chorar. Sem vocês, eu não teria aprendido a lição. Um brinde a todos aqueles que nos pedem horas de conselhos e nos dão em troca um simples “Vai passar!”. Um brinde a tudo que nos cerca, seja à mágoa ou à satisfação, à alegria ou à tristeza, à companhia ou à solidão. Um brinde a mim que tantas vezes guardei minhas lágrimas para enxugar as de outrem. Um brinde a mim que, mesmo sendo tão massacrado, continuo a acreditar no melhor das pessoas. Um brinde a mim e ao egoísmo que eu deveria ser capaz de ter.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Drop In The Ocean



                “– [...] Tipo, isso de correr atrás do que quer. Acho que a gente foi e voltou muitas vezes. Mesmo quando tínhamos certeza do que queríamos, a gente botava dificuldade. Cada hora era um botando uma dificuldade. Se tivéssemos ido atrás do que queríamos de verdade, talvez não teríamos dado tantas voltas, mas isso nunca vamos saber... – Ela falou e eu pude imaginar um sorriso em sua face.
                Provavelmente, se estivéssemos juntos, eu teria segurado a mão dela, eu tiraria aquela mecha do cabelo que insistia em cair na frente do seu rosto, olharia em seus olhos e diria aquilo que eu mais queria dizer:
                – Eu deveria realmente correr atrás do que eu quero, ou melhor, de quem eu quero. Eu deveria correr atrás de você.
                Ela ficaria vermelha, iria tremer, me dar um tapa – provavelmente duvidando de minhas palavras –, mas mesmo assim eu as diria. Eu poderia ouvir inúmeras respostas: do “sim” ao “não”, com lágrimas ou sorrisos. Eu poderia chorar, beijar, abraçar, levar um tapa, o que fosse; mas eu teria tentado. Como eu queria ter tentado ao menos daquela vez...
                Hoje, quando recordo daqueles momentos, sinto raiva de mim. Sinto raiva dos meus medos, das minhas fugas, raiva dos momentos que evitei em passar ao teu lado, dos momentos que não busquei a mais. Sinto raiva de ter te deixado tão longe quando queria te ter tão perto.
                Eu te feri. Você me feriu. Nossos medos e inseguranças nos moldaram ao longo do último ano e só nos afastaram cada vez mais. Você não é mais aquela garota, eu não sou mais aquele garoto. Crescemos, plantamos medos e mágoas, colhemos decepções. E hoje, evitando uma suposta ferida, prefiro te afastar. Prefiro te manter ao meu lado como uma amiga, uma irmã, ou o que você quiser. Eu prefiro te ter ao meu lado nem que seja com um simples “oi” esporádico a cada semana.  E com uma lágrima caindo do meu olho direito, eu apenas prefiro te responder:
                – Sim. Tenho essa certeza. A gente se gostava muito.
                E assim seguimos as nossas vidas: você em busca dos seus sonhos, eu em busca dos meus. E ainda acredito que, no futuro, olharei para trás e me arrependerei de todas as tentativas de boicotar o meu amor – ou nosso amor? –. Porém, no fundo, eu terei a plena certeza de que te amei demais para correr o risco de te perder, nem que fosse vivendo o nosso amor.”