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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Correr Riscos


Pensemos em algo seguro. Deitar na cama? Beber um copo com água? Respirar? Ok. Não importa o que seja. Agora, analise bem a situação. Fez isso? Reparou que pode haver um perigo nela? Ao deitarmos na cama, ela pode se quebrar, uma madeira pode nos machucar, o teto pode cair, um curto circuito pode se iniciar. Beber um copo com água também pode ser perigoso. Já imaginou morrer engasgado? E respirar? Um simples mosquito entrando pelas nossas narinas e podemos até morrer. Vocês devem estar se perguntando se usei alguma droga antes de escrever esse texto ou podem se perguntar o motivo d’eu ver o lado negativo de coisas tão simples.
A verdade é que esse texto não é pra ser uma apologia à negatividade, mas aos riscos. Ao risco de amar, de se permitir, ao risco da felicidade, da caridade, do ódio, seja do que for. De que adianta viver sem nos arriscarmos? De que adianta deitar na cama, beber um copo com água ou respirar se não nos mostramos dispostos a sentir algo verdadeiro.
A negatividade serve para nos alertar, para nos tentar racionalizar, mas em outras situações elas servem simplesmente para nos podar, cortar as nossas asas e nos deixar grudados ao chão como reles humanos. Somos mais que humanos. Podemos ser mais que humanos. Só depende da nossa coragem. Amar? Voar? Cantar? Não importa. Queira. Faça. Realize. Seja feliz.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Luzes Acesas


Música Sugerida: Wait - M83

A chuva caía, o céu clareava de tempos em tempos com os relâmpagos. Olhou para baixo e viu a água correr. Livre. Dali ele tinha uma visão privilegiada: podia ver os grandes prédios ao longe, os pequenos prédios de perto, a água que insistia em correr fortemente. Por um instante, ele deixou todas as preocupações – e eram muitas – de lado. Contemplou a visão e deixou-se levar por uma luz que se acendeu em um apartamento num dos prédios distantes. Sua mente começou a fantasiar uma história que ali existisse...
Como em toda boa história, haveria um casal apaixonado. Qual a idade? Na faixa dos 30 anos. Pronto. Começou a imaginar... O casal acabara de chegar em casa. Juntos. A mulher era bonita. Tinha cabelos negros, pele morena, vestia-se bem. O homem parecia alguém comum, um comerciante de cabelos castanhos, barba, óculos e um pouco acima do peso. Como ela teria se apaixonado por ele? A mulher carregava em sua mão direita uma sacola com o jantar comprado no caminho para casa. Os dois iriam tomar banho, comer, conversar sobre o dia, deitar juntos e assistir a um filme bobo que passasse na TV. Estariam abraçados na cama, contando histórias, rindo do cabelo de um ator ou falando sobre alguém que tinha contado algo interessante. Iriam dormir abraçados, acordar juntos, ter um filho no ano seguinte, teriam outros filhos, netos, talvez bisnetos... Enfim, a história prosseguiria.
Foi então que o rapaz voltou a si. Como poderia imaginar uma história tão perfeita? Nada era tão perfeito assim. Eles provavelmente chegaram juntos, ele estaria bravo com ela por algo. Tomariam banho, comeriam em silêncio, dormiriam de costas um para o outro. Ainda assim, teriam filhos, netos, bisnetos e a história prosseguiria... Naquele momento ele percebeu algo que nunca havia notado: algumas histórias podem parecer perfeitas aos olhos alheios, mas por dentro elas podem conter um turbilhão de defeitos. Era como o amor. Algo que funcionaria perfeitamente se fosse idealizado, mas tratava-se de um sentimento real, onde em uma simples noite ou em uma simples manhã tudo poderia deixar de existir e apenas as marcas permaneceriam e iam deixando de doer aos poucos, até que um dia fossem somente cicatrizes. Quem disse que toda história tem um final feliz? Até mesmo os mais belos casais um dia se despedem. A morte é inevitável. Amar não é querer proteger o outro de sofrer. Amar é fazer o outro feliz de forma que, quando a dor ou a despedida chegar, os momentos felizes tenham sido mais importantes. Como diria Aleilton Fonseca no conto “O Desterro dos Mortos”: “Enquanto há vida, há desespero!”. A dor é inevitável. Ela sempre vai existir. Só nos resta aprender a lidar com ela e seguir em frente, com todas as cicatrizes, lembranças, mas sem deixar de olhar para os apartamentos e suas luzes acesas, imaginando as histórias de amor que neles houver. Sejam elas perfeitas ou não. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quem nunca desejou amar?


Sentei no sofá cansado e triste. Olhei ao meu redor e o silêncio era perturbador. Coloquei aquela velha música para tocar. Pela primeira vez em anos eu senti. Senti as forças esgotarem, as lágrimas chegarem; senti meus medos aflorarem, minhas verdades aparecerem, meus sonhos clamarem. Não podia ser! Não naquele momento! Eu queria voltar a não sentir nada – é possível! –, eu queria poder não me importar, não sofrer... Eu queria não amar.
Por um instante, senti que duas versões de mim sentaram ao meu lado: o passado e o presente. O passado, com todos os seus sonhos, desejos e amores, me disse para sorrir. Disse que o amor estava chegando, que a vida era boa, que o mundo brilhava lá fora, que Deus entalha sorrisos nas flores e que há beijos de amor por toda parte. Já o presente, do auge da sua ignorância, da sua frieza, da sua ausência de sentimentos, clamou o sofrimento. Olhou em meus olhos e disse: “Pobre passado, tão sonhador, tão romântico, mas tão errôneo! Não vê ele que os amores não são eternos? O amor nos enfraquece!”. Aquelas palavras me fizeram sentir, mas não era o que eu queria.
Olhei para os dois. Tanto o passado quanto o presente queriam uma coisa: felicidade. Um queria crer no amor, na inocência das pessoas, nas grandes amizades, nos grandes amores... O outro, tão mais certo de tudo, sabia que nem as amizades e muito menos os amores são eternos. Eu percebi. As palavras do presente eram verdadeiras, eram as palavras de quem amou, sofreu, chorou, viveu. E agora? O que fazer? Esperar a vida passar sem medos, angustias, sofrimento ou lágrimas? Esperar que as coisas boas aparecessem sem dores? Os dois estavam errados. Não era possível sentir ou manter-se indiferente. Era preciso sim sentir o amor, a força das palavras, gritar, espernear, brigar, amar, transar, falar... Mas com a sabedoria que o presente conhecia, essas coisas seriam mais fáceis. Seriam maduras, sinceras, reais.
No fim, vi os dois desaparecerem com suas mágoas, incertezas, paixões e certezas. Restou apenas o meio termo: o futuro. Um futuro com amor, mas um amor real. Ele sabia que não era possível amar sem sofrimento. Ele percebeu que o amor era sim uma fraqueza, afinal, quando depositamos nossas forças em alguém, queremos que aquele alguém nos segure forte, nos proteja, mas sabemos que, se um dia aquilo acabar, perdemos a nossa força. Finalmente ele compreendeu que não existiria a sua princesa encantada, que ela seria entediante. Ele queria um amor real. Ele queria amar. Todos nós queremos amar.
Inclusive a mais fria das criaturas.
Inclusive as mais românticas criaturas.
Inclusive os que se fazem de forte. Inclusive eu. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Agradecimento ao Tempo


Entre mortos e feridos, entre falsos e sinceros, apenas algumas amizades sobrevivem. Muito se fala do tempo e da sua terrível maldição com as amizades: ele as leva de uma forma única, lenta e gradual. Por outro lado, as mentiras e as falsidades levam as amizades como um trovão: pode acontecer a qualquer momento, mas quando acontece é rápido e devastador.
Sempre me perguntei sobre a importância da palavra família. Sempre me questionei porque existem pessoas que não são da família e consideramos como se fosse ou vice-versa. Afinal, o que é família? Nesses poucos 20 anos de vida, aprendi uma coisa: família não é algo que nasce com a gente, é algo que morre. Família é aquilo que nós encontramos no decorrer de uma vida. Existem pessoas que podem ser “família de sangue” e que jamais chegarão ao patamar de “família de coração”. Assim como existem pessoas da tal “família de sangue” que são duplamente família. Amor não escolhe parentesco, amor escolhe afinidade, lealdade, verdade. Nós não escolhemos onde queremos nascer ou de quem seremos filhos, primos, pais, irmãos... Nós escolhemos quem ficará ao nosso lado para sempre, como num casamento: na alegria, na tristeza, na saúde, na doença, até que a morte nos separe. É assim. Sempre será.
Por mais que a dor e as mágoas existam, elas são superadas.
Lágrimas, palavras, sofrimento e a verdade.
E então eu agradeço ao tempo por levar as amizades boas perdidas, mas por levar também as mágoas, as tristezas e tudo de ruim que possa acontecer. 

Uma forma única, lenta e gradual. Uma forma real de se esquecer.