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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Lembrar



                “Eu consigo me lembrar da primeira vez que eu te vi. Era noite, seus cabelos ao vento, delicadamente penteados. E eu ali, um completo estranho que estava completamente encantado com o teu sorriso e com o teu olhar.
                Lembro do primeiro abraço, do primeiro adeus, do primeiro beijo, do primeiro beijo de verdade, do primeiro toque de mãos, da primeira música, da primeira briga, da primeira vez que você me magoou, da primeira vez que você disse gostar de mim e eu me lembro, com precisão, da primeira vez que você partiu o meu coração. E não foi a última...
                Talvez eu tenha errado comigo. Talvez tenha sido masoquismo insistir nesse amor tão sem cabimento, insistir nesse sentimento que – mesmo contra a minha vontade – parecia crescer, me inundar. O mesmo sentimento que você usou contra mim. Com todas as suas palavras e gestos cruéis que, até hoje, embrulham-me o estômago tão fortemente que nem mesmo o mais forte chá de folha de louro é capaz de aliviar.
                Desde pequeno, sempre tive o medo de esquecer. Tinha – e ainda tenho – um completo pavor de esquecer quem eu era, quem eu amava, os rostos ao meu redor, as minhas lembranças... E acho que eu acabei me esquecendo. É. Eu esqueci. Eu me esqueci de mim.
                Acho que, no fundo, eu acreditei nas tuas palavras; acreditei ser a criatura horrível que você fez questão de me tornar perante nós dois e acabei esquecendo quem eu realmente era. Eu não quero esquecer! Não quero esquecer o amor, a dor, nada disso. Eu quero que as lembranças me incendeiem como uma velha casa de madeira encharcada por gasolina. Eu quero lembrar, cada dia, cada vez mais, até que tudo isso se torne indolor. Eu quero ser capaz de lembrar tudo o que aconteceu, não com remorso nem por masoquismo, mas como um simples lembrete, uma nota mental, de não deixar nada daquilo se repetir novamente. Pra nunca esquecer... Pra nunca esquecer quem eu realmente sou. Pra nunca esquecer quem você realmente é.”

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Será "amizade"?



                Acho que eu deixei o meu altruísmo e a minha bondade falarem mais alto. Após tantas decepções, após tantas pessoas egoístas ao meu redor; talvez eu tenha deixado que as minhas melhores qualidades fossem capazes de me matar aos poucos. Creio que, ao longo dos últimos anos, eu tenha deixado morrer uma parte do que eu era, uma parte do que eu queria ser e uma parte do que eu poderia ser.
                Foram muitas decepções. Vi amigos tornarem-se distantes – mesmo com minhas tentativas de resgatar tais amizades –, vi amigos tornarem-se completos estranhos, vi amigos que, simplesmente, passaram a não se importar comigo. Talvez esse tenha sido o meu erro: talvez eu tenha ajudado demais os outros e esperado que, quando eu precisasse, eles estivessem ali comigo.
                Aos poucos fui descobrindo uma das coisas mais dolorosas que eu poderia descobrir: a palavra “amizade” tem perdido o seu valor – ou pelo menos ela tenha perdido o valor para aqueles que um dia chamei de “amigos”. Vivemos em um mundo regido pelo egoísmo, onde o bem estar próprio supera as vontades e o desejo de cuidar do próximo – mesmo quando tratamos de um “amigo”.
                Acredito que eu tenha deixado a minha bondade falar alto demais. Talvez eu tenha sido inocente de acreditar que todas aquelas pessoas – que um dia me chamaram de amigo, irmão, melhor amigo – estariam ali comigo quando eu precisasse. Bem, elas não estavam... E nem estão.
                De todos os personagens de séries, filmes e livros que já conheci, sempre me identifiquei com a Bonnie, de The Vampire Diaries. Sempre presente, seja para proteger ou simplesmente para consolar um amigo, Bonnie acabou por perder a sua vida algumas vezes pelo bem estar dos outros e talvez eu tenha feito o mesmo. Talvez eu tenha passado a reger a minha vida em prol do bem estar dos outros, cuidado dos outros; e talvez eu tenha esquecido o elo mais importante para mim: o MEU bem estar.
                Creio que tenha finalmente chegado a hora d’eu ser um pouco mais egoísta e de aprender a lição. Talvez, sendo o bom amigo, eu tenha (infelizmente) acabado sozinho.

Extra: Bonnie sozinha no mundo-prisão!
"She sacrificed everything for us over and over again, and then we were supposed to be there for her. She's all alone!"

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Talvez(es)


Talvez eu seja um monstro.
Talvez eu seja aquele tipo de pessoa que fere com palavras (o pior tipo de pessoa, cá entre nós).
Talvez eu seja egoísta.
Talvez eu seja o tipo de pessoa que você disse que eu sou.
Talvez eu seja um homem frio.
Talvez eu seja cruel.
Talvez eu não saiba amar.
Talvez, talvez, talvez...
Talvez eu nunca tenha amado.
Ou melhor, talvez eu nunca tenha sido amado.
Talvez eu erre demais.
Talvez eu persista nos meus erros demais.
Talvez os meus erros façam parte de mim (desculpa, mas não sou perfeito).
Talvez eu persista em ser quem eu sou.
Talvez eu não goste de me perder de mim (redundante, eu sei).
Talvez eu não queira deixar de ser quem eu sou.
E talvez, por isso, eu sou tão julgado.
Talvez eu seja uma boa pessoa.
E talvez, por isso, eu seja tão facilmente magoado.
Talvez o erro seja única e exclusivamente meu – meu erro de esperar o melhor das pessoas.
Talvez o mundo tenha mudado a sua trajetória e eu fiquei parado em algum lugar do passado onde eu acreditava que as pessoas eram boas.
Talvez eu viva num “mundo de fantasia” e acredite cegamente na bondade dos outros (mesmo quando ela não existe).
Talvez eu espere, assim, que as pessoas me tratem tão bem quanto eu pretendo tratá-las.
Talvez eu erre.
Talvez eu erre muito.
Talvez eu esteja um pouco cansado das pessoas; das suas mentiras, traições, palavras em vão.
Talvez eu não seja mais o mesmo.
Talvez eu esteja aprendendo a descrer no mundo e nas pessoas (mesmo que isso me doa).
Talvez eu esteja me tornando aquilo que eu sempre tive medo: um adulto.
Talvez eu esteja me tornando aquilo que eu sempre tive medo: um adulto que, nas palavras de alguém, seja frio e cruel.
Talvez eu não tenha mais aquela alma infantil tão bondosa e apaixonada pelo mundo.
Talvez eu esteja errado.
Eu estou errado.
Afinal, eu sempre erro (Não é mesmo?).
Acho que todos esses “talvezes” na minha cabeça sejam fruto da minha capacidade de acreditar nas palavras dos outros. Talvez eu escute muito, fale pouco.
Engraçado... Talvez eu não esteja errado.
Talvez eu esteja rodeado das pessoas erradas (algumas).
Talvez eu tenha encontrado (algumas) pessoas egoístas, cruéis, mesquinhas.
Hoje tenho a certeza de que não sou o vilão. Não sou o cara frio e cruel. Acho que finalmente aprendi a não me calar mais com as coisas que me incomodam.
Talvez essa “frieza” e essa “crueldade” que tanto dizem seja apenas o reflexo da mudança.
Talvez eu esteja assustando por estar reagindo, por não deixar que as pessoas ditem, mais uma vez, a minha vida. Por deixar que elas não pisem mais em mim.
Talvez eu tenha aprendido a lição.

Talvez agora eu me enxergue como eu sou de verdade.